guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la
Antonio Cicero, "Guardar"

Voltei. Abri a gaveta que havia se tornado um armário. Desenrolei a frota de barquinhos de papel. Decidi transcrever tudo, à caneta. Mas aqueles papéis avulsos não tinham rota. Davam voltas, isso sim. No umbigo, disse um supereu. Não senhor. Suprimi essa parte do texto para não levar outra bronca de Edith e ouvir pela milésima vez que eu não era uma romancista de verdade. De verdade, ela dizia inclinando um pouco os óculos para me fitar, enfática.
Voltando: eu comecei assim, me terminando. Tirei o figurino de personagem - que sou - e me pus a narrar. Era isso sair da gaveta: me pôr nua, me expor à diagnóstico.
Está tudo aqui transcrito, neste rolo de papel, à caneta. É o retrato do artista quando moça. É uma página inteira e só. É um emaranhado de fios. Romance não é mais novelo, tento explicar a Edith. Eles não permitirão, ela diz, em tom de sentença, não te deixarão passar. Eles quem?
síndrome da gaveta

Escolhi a caneta para começar. Já não era mais tempo de grafite, lápis de olho, giz de cera, borrão. Era tempo do definitivo. O que permaneceria sem meu corpo, sem meu punho. A voz, à caneta. Tive medo dessa eternidade. Esses anos todos tive medo de sair do armário e dizer: sou eu a escritora, a atriz que encena textos em tempo real, a narradora de carderninhos, marinheira só em blocos de carnaval. Mas por que explicar? Quem estaria ouvindo? Redatores insones numa madrugada googlística de trabalho? É assim: pergunto, pergunto, nunca termino. Ele disse: é initerrupto. Initerrupta, parei, abrupta.
[evelope azul exato]

Luísa,

Eu sei que eles vão me pegar lá fora. Você deve estar se perguntando quem? Eu digo: os cães. Mesmo assim, publicarei.
Envio neste envelope tudo reunido em espiral. Mandei uma cópia também pra Chará (por onde anda ele?), pro Ney, pro Eugene (será que ele lembra de uma aluna silenciosa como eu?), para Marina, para Raimundo, Eduardo, e o Raul, é claro, e também a Bia, a Lídia e a Anaís.
Leia como quiser. Abra ao acaso, de um lado ou de outro, comece terminando, termine começando... de todo jeito, estarei eu aqui, em pedaços, desaparecida. Não sei quando volto, se volto um dia. Mas sei que aqui, permaneço. Uma espécie de sobrevida, sabe como é?

Não esqueça de se anotar aqui. Desenhe junto comigo.

É doce morrer no mar, minha amiga. É Caymmi que canto enquanto escrevo.

Vai assim esse bilhete meio suicida. Já te disse que acho os surfistas de uma coragem suicida? Então: é tempo de surfar ao invés de navegar.

Deixa eu ir senão não termino nunca.

Um beijo,

Luíza
morreu
o eu
morreu
luíza
breu
(cole)
- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -
o romance está solto nas páginas do bloco. favor recortar e montar numa possível encenação em palco imaginário.
movimento do bloco sem corda
Edith se sentou e fez um monte de perguntas sobre o que para ela estava muito confuso. Cadê a correspondência completa? Expliquei que eram só duas cartas, a primeira e a última. Ela disse mas assim não pode. Quis cortar tudo de vísceras e todas, todas as miudezas. Quis me dar a receita certa, olhe, é assim, pescoço, fígado, estômago. Ai, ai, ai, nunca dá certo isso. Edith estava velha e reclamona. Nunca dá certo poesia em prosa. Você vai me dar muito trabalho, Luíza. Edith, não cospe no prato que comeu. Deixa eu te explicar que.
a escritora quer dar um laço. mas não encontra a ponta.
ela está emaranhada no fio condutor.
elos
amar elos
linha a linha, tricoto a colcha de recortes. ___________________________________________________________ {estou por um fio.}
A escritora é Ela. A escritora é personagem.
é preciso terminar o livro
impreciso é terminar-me.
t_e_r__m_i_n_a_r__


comer cabidela
é devorar-me.
esperei o tempo da gaveta
(guisando)

li, reli, releio; me leio.
digo, não digo; me edito.

eu preciso sair daqui.
daqui, da gaveta-armário onde me penduro.


não sou profissional
sou ficcional
Chama a Edith pra mesa
que a Cabidela tá pronta.
post-it

escrevo para lembrar
leio de um lado.
escrevo de outro.
(recorte)
- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -
é aqui o começo