I

Luíza olhou cada aresta da casa desmontada, tentando guardar pra si um pouco dela própria, que se desdobrou por aqueles cantos e cômodos naquele último ano. A radiola não estava mais lá e mesmo assim Luíza ainda ouvia Domingo, com Caetano e Gal, disco que a fez um dia querer trilhar o caminho de volta, sem que soubesse – e isso talvez já supunha naquele ponto da história – que voltava para um lugar imaginário, onde o nascimento era o único fato, mas não sabia das estações, nem dos rios, nem nada que não fosse mero recorte do grande painel que construiu de sua cidade natal, por vezes folclórica, outras tantas ideal para começasse tudo outra vez, para que enfim tudo mudasse.
Só que ela escolhera um caminho mais longo. Antes de voltar, Luíza atravessaria sua primeira grande fronteira. Luíza iria para o estrangeiro, virar uma estrangeira. Seriam dois trajetos, duas mudanças: de uma cidade à outra e depois a próxima, a primeira de todas. E por isso, nesta cena, Luíza olhava solene para aquilo que não chamaria mais de casa dali a alguns instantes, que já estava mais do que nua, só habitada pelo o que deixara pra trás – alguns móveis, frascos, potes vazios de sorvete, produtos pela metade – e dizia adeus a tudo e também àquela janela, que naquele momento era a presença mais forte da cidade, posto que estampada de árvores. Decidida pela partida, mas com grande amor por aquele chão e pela vista daquele fim de asa, o seu território, Luíza trancou pela última vez o apartamento 523.
Ajeitou a mochila nas costas, com o coração num disparo só, e encontrou-se com o motorista que aguardara dizendo você está atrasada e reclamando que os olhos ainda estavam borrados da noite anterior e que provavelmente ainda estava com álcool no juízo. Ele não sabia que o que lhe doía era a grande intervenção de agulhas que fizera no corpo e que a partida era tão aguda quanto a cicatrização daqueles rabiscos na pele. E que a noite anterior foi nada mais que a sensação de que não havia mais tempo, e caminhava nua pela casa com os amigos que tentavam um registro de seus passos e riscos, fotografando tudo em três, dizendo eu te mando tudo por e-mail, e ela, repito, andando nua pela casa feito alguém já sem norte e ao mesmo tempo preparando mapas, guias, endereços e todo o resto para a partida. Sorria de desespero, se o fazia. Por que diabos havia escolhido algo tão grande, tanta mudança numa só? Luíza e seus amigos – os co-autores – se demoraram horas naquele quarto construído para que fosse cenário, encenando sem dramaturgia uma peça cuja personagem principal era a despedida. Sendo que a despedida estava inscrita no corpo de Luíza e datada. Tinha hora pra acabar e já não tinha mais tempo para dizer adeus aos amigos. Já não tinha mais copos nem cadeiras nem sossego. Me desculpe, meus amigos, mas preciso morrer um pouco. Enviaria a mesma carta para muitos destinatários, depois, com tempo, mas agora precisava sair de cena.
Ela foi o trajeto todo meio surda, talvez nem tão solene como antes, porque sabia que voltaria à capital. Estava deixando pendente uma defesa. Mas ela percorreu o trajeto ao aeroporto com o que agora suponhamos que seria uma felicidade clandestina, uma vez que é isso o que chamam do sentimento furtivo que nos fala alto ao corpo, afiado ao coração e mesmo assim é intensamente oculto, pois incógnito. Chegara. Era hora de descer. Desça, Luíza, vamos, disse ele, enquanto ela ainda se demorava recostada no banco do carro. Ele fez algumas recomendações – e ela ainda meio surda – e no meio delas ela o abraçou forte, mas muito forte mesmo, talvez materializando nele a despedida de todo o resto, e foi a única vez que Luíza chorou naquele adeus, e chorou de medo, rápido, mas alto, sem que pudesse disfarçar, tomando seu pai nos braços porque naquele instante sentiu muito medo de ir embora, de atravessar fronteiras e de mudar de vida. Por que diabos havia escolhido algo tão grande, tanta mudança numa só? Depois disse, sem limpar lágrimas nem nada, pois havia sido um choro seco, quase como um uivo, obrigada por me comprar essa passagem, por me deixar passar. Obrigada por me dar teus braços para que eu possa alçar este vôo. Obrigada por me ensinar que a vida pode se navegar sem medo e sem bússola. Obrigada. Eu dou notícias quando puder. Tchau.
Deixei de lado os pretéritos e escolhi voltar ao presente para falar do passado, para coreografar a grande roda. Cato algumas tachinhas de ferro e perfuro o bloco na tentativa de grafar um trajeto. Escurece e não posso mais ler minhas anotações. No entanto, a única luz, a da tela, ilumina meu rosto tal qual um holofote e não abro mão deste prazer por nenhuma letra ou item sequer que me guie. Vou assim, tateando as teclas e formando palavras no breu, só guiada pela cena que eu mesma indico aqui, no instante-já e neste feixe de luz que me põe no palco. Recorro ao monólogo para lembrar-lhes como cheguei aqui. Preciso do ato, da narração em ato para organizar essa montanha de post-its que agora estão escuros na mesa.
Começo pelo retorno, mas levanto um pouco para deitar-me e relembrar a partida. É domingo e nada é tão veloz assim num domingo.
Não faz sentido
dar sentido

Embaralho as cartas novamente.
18 – O moço das cartas
“Agora que agora é nunca” *

Ela me disse que tinham dois rapazes nas cartas e não tinha nenhum. Até que apareceu, muito tempo depois, um, depois outro. O primeiro chegou e não veio. Não era um terráqueo propriamente e habitava meus sonhos como o maior e melhor protagonista de paixões em alto mar. Raimundo vivia comigo na temporalidade outra das cartas de tarô, na virtualidade das cartas de amor. Mas seu destino atracou no meu porto e não desceu. Permanecemos na irrealidade de um iromance.
20 – O velho marinheiro
“Agora volta pro novelo” *

João era estrangeiro e demorou para que falássemos uma língua comum, essa que chegamos por um acordo, uma espécie de língua criola, minha e dele, para que pudéssemos entendermonus além do silêncio e dos corpos. João era marinheiro como eu, como o outro marinheiro que passou pela beira da história, mas não ficou, e, também como eu, havia recém ancorado quando nos encontramos no dia em que tudo mudou. Ancoramos os dois nossas canoas e fizemos da âncora um balanço. Nela nossas vidas deram uma dessas grandes voltas que anunciam os presságios.
21 – O círculo

“Agora vento no cabelo” *

A era de aquários havia sim se consumado naquele ano nove. Os sóbrios que duvidassem, mas eu havia feito a transição, fechado um círculo, encerrado o trânsito. Cheguei no porto e dois meninos me receberam correndo: o pai e o filho. Foi-se o tempo de ser só eu. Não me lembro exatamente quem me disse pela 1ª vez da era de aquários. Sei que estava pesquisando 1968 e cheguei nisso. Quarenta anos depois, falava-se também em transição da era da noite para era do dia. Mas o que eu soube era que aquários seria plural, que sairíamos do individual pro coletivo. Do egoísta pro altruísta, diriam os mais sóbrios.
16 – O retorno

“Agora eu nasço lá de fora” *

Fui admitida, permitida de voltar oficialmente à torre. Transitava novamente entre os vidros blindados do castelo universitário e os jardins tão livres ao seu redor povoados de calangos. Eu me surpreendia em como a torre era outra e ao mesmo tempo era mesma, sobretudo no que se referia a presença de calangos no campos. Mas dessa vez eu estava do outro lado, de caneta vermelha na mão. Eu era a mestre de obras no palco das salas de aulas e tinha a árdua missão de desestabilizar a rígida polifonia daquela babel, propondo, sempre que não me doía os hematomas, o exercício de nos desequilibrar e cair. Mas eu estava do outro lado, de caneta vermelha na mão e comecei foi a sentir saudade de ser eu a aluna, de ser eu quem ouve e não é obrigada a dizer, de ter aquela liberdade das possibilidades infinitas. Na juventude se tem a falsa impressão de que se pode escolher o destino. Escrevi a vida a lápis antes dos vinte e cinco. Agora, com a caneta empostada, impossível de rasura ou borracha, passo a limpo uma história... uma versão da história para ser impressa. E tenho uma saudade eterna de todos os esboços e rascunhos. Tenho saudade do futuro escrito a lápis e por isso incessantemente reescrito. Reescrever era o barato. Agora algum futuro chegou e algumas dessas frases estão a caneta. É hora de imprimir alguma vida.
6 – A decisão
“Agora vivo na barriga
Agora brigo pra voltar
Agora.” *

Ela primeiro me perguntou se podia me pedir algo. Eu disse claro! Ela então fez qualquer coisa como um suspense ou uma timidez inventada naquela gargalhada adorável e escandalosa. Eu ri também, mesmo assim temendo o tamanho do pedido. Foi quando ela me disse eu queria que você escrevesse a minha história. Sorri apenas, olhando seus olhos de mar. E embora eu tenha desejado dar-lhe isso, como um eco e um carinho para seu grito engasgado, eu não consegui escrever uma história que não fosse minha. Mas daí aconteceu da minha história se cruzar com a dela. Eu também passaria nove meses de ventre cheio e tínhamos, então, como nenhuma outra, uma experiência repartida, impossível de ser imaginada posto que vivida agudamente. Foi então que contando a minha história eu contaria um pouco da dela e mesmo assim sabíamos que nossas narrativas não seriam nem nunca foram a mesma, embora vez ou outra se cruzassem no verão.

* “Agora”, Arnaldo Antunes.
A cartomante

Ela era loira, a cartomante. Me recebeu vestida como quem teve esmero em fazê-lo, equipada de brincos e anéis. Guardei na memória apenas que eram grandes e dourados. Ela era loira, simpática até e acho que tinha dedos e unhas longas, mas já não sei se isso cá já é do imaginário. Mandou-me sentar e sob a mesa cheia de panos coloridos, que pareciam cangas de praia, montes de diferentes tipos de baralho me esperavam. Ela fez uma oração, evocando não soube bem quem nem qual linhagem e me mandou tirar uma carta do baralho maior. Era a carta que definiria o meu momento atual, explicou. Permaneci calada como ela mesma me recomendou, pois disse que gostava de adivinhar sozinha tudo, apenas ouvindo o que o tarô lhe permitia saber.
Retirei uma carta, solene como pedia o ritual já iniciado no quartinho de consultas de Mara. Mara era a cartomante loira e misteriosa que me atendeu naquele dia de verão. Era verão no último mês do ano e sentia nada mais que um vazio enorme. E isso era tudo no dito momento atual em que entrei para consultar Mara. Queria saber o que havia pra depois disso, se alguma coisa viria preencher o oco que já havia subido para meus olhos escuros e estava ali exposto caso Mara não conseguisse ouvi-lo de suas cartas.
O enforcado, a carta doze, foi a que entreguei nas mãos da cartomante depois de repartir o baralho. Era a carta do presente e ela disse que não entendia como havia tanta tristeza por detrás daquele sorriso, posto que era belo e jovem e me mostrou a imagem do enforcado, preso pelos pés, dizendo este é o seu agora.
Mas o jogo ainda não havia começado. Ela embaralhou tudo de novo e disse parta. Eu o fiz e ela iniciou a leitura em voz alta, anotando quase tudo numa folha de caderno que seria minha no final da sessão. É pra você guardar e voltar a ver no futuro, me orientou. E nunca mais eu voltei a ver a folha.
Agora, leitor
é hora de virarmos

não página,
livro.

Sim, leitor
é hora de livrarmos
isso
daqui.

vamos
vire-se.
abri a janela e eles estavam aqui me observando. eles estão aqui, agora, não vê, me olhando do lado de lá do vidro?

escreverei assim mesmo.
a partir daqui
é tudo ficção.





Não tive nem mais um segundo depois daquela madrugada. Nenhum segundo para considerar sozinha aquela realidade. Hiper realidade, entendo hoje. E as lacunas me tomaram de tal forma que enlouqueci, confesso, enlouqueci. Tudo porque caí nas mãos dos sóbrios e não pude mais considerar tal realidade sozinha. Me foram enchendo de frases, rótulos, sub-textos, canções de ninar. E o meu tempo de considerá-la sozinha, quêdê? Mudo. Foram 20 luas, vinte luas de lapso, silêncios e gavetas vazias. Fui trancafiada na província, essa era a idéia, a paranóia. E a paranóia é um teatro, é isso? Não consigo separar as coisas e permito, concedo que os loucos saiam por aqui fazendo cortes nos tecidos de meu texto. Excluo meus leitores. Excluo. Preciso considerar sozinha aquela realidade. Preciso voltar para a última parada, retornar a esse trajeto invertido e partir de um domingo em que decidi, sem volta, esta realidade. Escolhi, no escuro, confesso, mas escolhi pela ação, pelo movimento, pelo prolongamento da vida. Nem sei a grandiosidade exata de tal gesto, mas sempre soube que era grandioso. E tomei por isso, decidi pela grandiosidade que me tomou na primeira possibilidade real de estar grávida. Era grandioso porque eu havia me emprenhado de terra, e a minha terra havia me feito fértil.
Paro um pouco e rememoro tudo que se passou nessas últimas vinte luas. É estranho, mas há uma certa saudade, estranha ainda, naturalmente, mas uma saudade da tragicomicidade dessas vinte luas. O corpo, o nosso corpo – corrijo com o que ele me ensinou de que somos o nosso corpo – nós, portanto, vamos virando Outro que não nós mesmas, embora naquela lua a gravidez fosse nada mais que dois traços tingidos num teste de farmácia.
Isso tudo me faz lembrar que no mesmo ônibus, minutos antes da primeira ponta de desconfiança, eu pensava que eu tinha uma colher de melodrama em mim e ia dizer a Ele, olhe, você precisa entender isso. O coletivo contornava São Caetano e de alguma ladeira eu avistei o Bonfim e não entendi como havia surgido mar por entre aquele horizonte de barracos. “Eu dei a volta na Baía?”, me indaguei ainda na confusão daquela profusão de narrativa visual. Sei que soube que era um movimento circular. E foi naquela volta que dei em mim mesma, que cambaleei e tomei uma grande rasteira da vida.
É, eu não tive nem mais um segundo depois daquela madrugada, depois daquela viagem a São Caetano. Foram tantas luas que não tive fôlego de acompanhar a vida. E por isso, dizer. Foram tantas voltas, voltas, voltas, quantas voltas dei em mim mesma para me levantar. E quantas foram as explicações, até que por fim decorei uma e fiquei repetindo, que nem gravador, aquilo que nem eu mesma sabia. E quantas foram as perguntas e as não respostas que era eu agora a responsável pelas lacunas, em dar aos outros paredes em branco.

*

Quando completei as vinte e uma luas, lembrei das vinte e duas cartas. Era isso que dizia o vigésimo primeiro arcanjo, entendi depois de futucar o baralho, há tanto tempo não aberto. Era essa a transformação, o chão onde ainda nem dou pé.
Isso não é transitório, foi a única coisa que pude constatar e mesmo assim não entender.
É a saída do trânsito para plantar, me plantar, penso agora.
João me estende a mão, ele está no banco ao lado. Foi ele quem me entregou as sementes que secavam na janela. Eu já havia me esquecido delas, já havia me esquecido que levava sementes no bolso, que estava fértil, que tudo estaria prestes a mudar. Fizemos delas muda, mexendo e regando o solo pelo simples prazer do movimento. Choveu e a gente nem viu. Cresce agora em mim e é nossa. Penso num jardim, ele numa horta. Conto as luas. E eu vou aprendendo a ser terra na beira-mar desde o dia que entrei no novo ciclo, desde que mudei e emudeci.

*
Fez-se um novo tempo.
Estaciono e tiro as malas, as minhas e as outras. Procuro um canto para morar, sentar e escrever. Alguém já mora em mim e em meu coração já pulsa o novo.
Salvo tudo num documento escrito lápos, as novas frases depois do espaço vazio. Resisto a mais um asterisco, mas percebo que a narrativa não se resolve mais numa carta só. E já basta de histórias em círculo.
Carta VI – Os enamorados

Tenho uma vida branca
e limpa à minha espera:
(Ana C.)


Não estávamos presos a nenhuma linha, senão a qualquer coisa como a linha do tempo ou qualquer existência que permanecesse nesta. Mas naquele dia eu mostrei que estavas, como nenhum outro, nas folhas de meus cadernos de desenho. Isso porque, desde o começo, sentamos diante daquela parede branca e muda a que no final eu não resisti e lancei, quando já parecia tarde, feito louca, um balde de tinta preta sob as marcas rosa-choque de batom que despretensiosamente inscrevi naquela folha branca de concreto. Eu não aguentava mais calar com tinta branca os meus gritos e comecei abusar das tintas escuras, sobretudo o marrom que fazia questão de obter com a ponta dos dedos, partindo sempre do vermelho. Era a experiência tátil que mais me aliviava naqueles meses que sucederam a tempestade, quando troquei as bancas de caligrafia pelos caderninhos de desenho.
Mas deu de um dia tu apareceres com os olhos pintados de azul. Azul com vermelho dá o quê? Eu respondi: verde. E tu disseste roxo, azul com vermelho dá roxo. Eu não entendi o que poderia significar este tom na história, mas repeti “roxo” com alguma satisfação, já que a cor não me ia mal. O que não andava bem era aquela parede de nada, então, eu não resisti e lancei, tarde demais, louca e melodramática, um balde de tinta preta sob as marcas com as quais despretensiosamente me inscrevi na tua folha branca e muda.
Eu só não sabia que depois estaríamos unidos por qualquer coisa como um nó cego de fita sabe-se lá de que cor. Assim julguei ser. E a decisão era continuar na trilha de mudos convites e destinos de nada ou, então, começar outro desenho com os dois traços que permaneceram no que restou da superfície branca. Foi aí que, novamente sentados, finalmente largamos da folha, da parede, da cama branca, olhamos de lado e demos um laço. Um laço roxo.
o mar é imenso. escrevo ao vento da brisa marinha no passeio público escrevo. por que há tanto tempo? apesar de ter perdido o sol se pôr, ainda é dia e as nuvens passam rápidas sob as nossas cabeças. paro um pouco, respiro fundo e peço alguma ordem e calma para a minha. agora penso na descontinuidade do fio condutor. eu não caibo num fio condutor, já disse e essa frase é velha. mas agora penso que este fio que se forma por dentro deve ser qualquer coisa como um fio condutor. ouço os passos calmos e quase silenciosos d'Ele. Ouço seus passos se aproximando das costas dos meus ouvidos. Será que o ser que habita meu corpo lê o que eu escrevo? recebe qualquer coisa de efeito verbal por seu fio condutor? as nuvens continuam passando rápido pelas nossas cabeças. mas já me permito não pôr ordem para entrar no vazio da calma, no branco da calma. a calma é uma página em branco ou toda preenchida? penso na figura muda da escritora lendo, com os ouvidos, o meu relato. ela é dessas que usam só as iniciais como sobrenome. como "F.", "C.", como "B.". Agora penso no que vou dizer quando os passos chegarem. como vou relatar, falar de nuvens, inciais e tópicos no acaso da vista do passeio público. como vou falar de nuvens pesadas sem descarregar? não quero chover, mas estou cinza, muito cinza. É este o setembro nove? Mesmo sem me libertar, eu vôo? Eu vim e agora cortarão minha asa? Ou me darão outra, para formar um par? Conjugo o verbo como se "eles", grupo de mais de uma pessoa absolutamente desconhecido, fossem os agentes da distribuição de asas por aí. Avisto um barquinho de longe, num mar imenso. Estou na terra e agora eu mesma sou um jardim com raízes crescendo na água. Uma lua, como unha, estampa o céu. A noite vem chegando. E o que eu digo a Ele? Eu disse à escritora e ao poeta, já disse tudo hoje, na tarde que vai se indo: eu não consigo escrever. eu não consigo escrever nem conto nem carta, nem mesmo as letras desenho, só inscrições garrancho. eu não consigo escrever, repeti. Eu não consigo mais nada de antes, eu disse e percebi como havia e há em mim a resistência em mudar de fase no vídeo-game. Sair da estabilidade de saber onde dar o soco para ganhar os pontos. Ele vai chegar com seus passos breves e eu não sei o que eu digo, penso de novo. Deve ter alguma vantagem nisso. Os homens conversam no banco do passeio público, as nuvens começam a ficar mais carregadas, pois vai anoitecendo e já podemos ver sombras. Imagino, então, não mais seu passo, mas sua sombra. Um violão, um cheiro de fumo, buzinas lá na via principal - deve ser 18 horas - e uma moça que estava atrás de mim e parecia também esperar por alguém vai embora. A luz é amarelo-alaranjada no passeio público, registro enquanto penso em quanto ele mudou e como a sombra começa a me impedir de escrever. Lembro do setembro passado e acho bom ter saído da tranca da casa, das paredes do apartamento de concreto, para estar debaixo dessas nuvens, que já estão quase negras de tão cinzas. Deve ser uma expansão de mim mesma, psicologizo. Isso inclui a minha barriga e evoco novamente, pelo acaso, o movimento contra o barrigacentrismo fundado há doze meses. O céu já está quase todo negro e seus passos devem estar bem próximos dos meus pés. Olho para trás pela primeira vez. Não gosto. Passei um, dois, muitos fins de semana olhando para trás, com intervalos semanais de aceleração em 36X. Agora quero parar nessa folha de papel. No instante dessa folha. Afinal de contas, estou grávida de um instante de dois. E estou prenha de terra e de mar à vista.
Só há alguns pedacinhos de azul celeste no céu. Por que me perco tanto de mim quando escureço? Pouso meu olhar no infinito como se tivesse sendo olhada por quem chega. paro um p
não sobra tempo
para passar a limpo

não sobra tempo
para passar setembro a limpo

não sobra a limpo
nenhum setembro
para passar o tempo
O primeiro Raimundo apareceu no carnaval. Em seguida vários da mesma espécie, distribuídos em diversos setores, ao decorrer dos primeiros meses. Mas foi na semana depois das cinzas, quando eu ainda procurava um de carnaval, que Raimundo Luiz me apareceu. Ele pediu pra surfar no sofá da casa que não era mais minha, na cidade de onde havia partido. E deu-se um atraso astral.

*******

Comecei a estender a palavralogia ao campo do R e resgatar conexões com Raul, Alfredo, André, Marina, Eduardo, Vera, Ricardo, Rafael e mais uma lista de nomes e pessoas a mim ligadas pelo elo dos erres. Os erres que ligavam meu nome ao de outros era por mim interpretado como um anúncio de uma grande coisa: desses elos de laço e de nó, sempre atados num movimento invisível e desconhecido, sempre grandiosos. Sabia é que havia uma relação, um elo, que fosse, entre nossos “rês”, como dizemos aqui. E, além disso, o r de mar e de ar e de amor, é claro, mas, sobretudo a diversidade fonética de dizer o rê. Eu gostava especialmente do /r/ retroflexo e provavelmente pediria que ele me dissesse no ouvido “estandarte”, para vê-lo vibrar a língua e depois juntar a minha à dele, para vibrarmos, junto, em L. L, nosso segundo elo cruzado.

******

Voltei pra a casa que não era mais minha e reencontrei-me com a parede de escritos, o livro de citações de porta e janela trancadas. Tinha lá escrito em azul-marinho: eu hospedo infratores. Mas eu não hospedava mais ninguém e queria tê-lo tido hóspede, dançado com ele, pela casa afora, naquele cenário de palavras, mas fui embora antes do encontro que marcamos há anos-luz em algum outro mundo. Fui embora de novo, dessa vez de vez e deixei meus cachos em Brasília no mesmo adeus que dei àquelas palavras e às reminiscências das velhas histórias.

*****

Havia deixado os cachos em Brasília e seguido a vida em frente sem cabelo, sem fios, quase sem memória. Quando cheguei, recebi a primeira carta roxa. Era um presságio. Raimundo Luiz começou a me enviar pelo correio cartas homônimas de tarô. Acompanhada delas, um carretel de linhas: ao puxar o fio, me emaranhava em suas poesias dependuradas. Sei que agora correspondências chegam o tempo todo em nome de Raimundo. E me pergunto, coçando o coro cabeludo com mania de careca, que diabos isso significa.

****

Ele disse qualquer coisa, mas significamente encantadora e mágica como sempre o faz, quando distraído, e imediatamente reconheci que ele era o moço das cartas. Foi aí que bati na porta. Três tocs. Quando ele perguntou quem era, eu disse que era a moça das cartas. Que cartas?, ele disse. As do correio. As do correio eletrônico, respondi.

***

Eu oferecia malhas e rendas e pontos-parágrafos e tecia nossa colcha, com os fragmentos de nossas mensagens, nas linhas tortas da espera. E de repente ia se formando um mundo vasto de miudezas diante dos meus olhos. Vez em quando foi com esse tecido que me fiz saia e saí rodopiando pela noite, para reencontrar-me com a aurora das madrugadas. E era ali, ilhada pelo mar e com os pés na areia, que queria tê-lo vivo, ao vivo.

**

Só Raimundo Luiz ficou na profusão de Raimundos. O mais vasto e tão vasto como todos eles, mas o mais Raimundo de todos ficou. E ele era o único que eu nunca tinha posto os olhos e, no entanto, o único capaz de corresponder o olhar.

*

Puxei uma carta no baralho para nós e saiu a Lua. Corri léguas para caber nas horas. Corri para ultrapassar o atraso que nos mantinha caros desconhecidos. Corri para não ser ultrapassada pelas 40 semanas lunares e as 60 horas de trabalho. Mas era um atraso astral e eu não cheguei.
Carta XVIII – A Lua
Para Rafael Manfrinatto


Alô? Me ouve daí? Estou com um canto engasgado na garganta e só você pode me escutar, pois me escutas mesmo com fones de ouvido à quilômetros de distância. Estou ouvindo Beirut e só consigo pensar em ti quando ouço Beirut. Lembro das tantas vezes que imaginei tu e teu escorpião entrando em mim por debaixo de uma colcha de retalhos numa cama branca. Lembra? Lembra da cama branca e das escadas de travesseiro? Vejo a lua cheia daqui da janela do escritório do birô de palavras. É lindo como ilumina toda a faixa de mar que temos no recorte desta vista. Não é em escorpião a tua lua? Sim, eu fantasiava sempre a gente se amando ao ritmo de Beirut. Mágico, alto e sensual como os metais das cornetas. Nunca me esqueço quando tu cantou daí “eu como eu como eu como você”, este fato nunca consumado senão nos nossos encontros em Saturno. Tu me estendia amoras daí e elas nos levavam, nus, para um mesmo sonho. Eu também comia cada uma das tuas palavras e me engravidava delas. Um júlio grávido, assim espero, dizia uma das frases que resgatei da nossa pequena âncora xlm. Era das tuas palavras que eu engravidava, Vênus, porque apesar de saber que não poderia nem saberia mais viver esperando que o mistério da Lua se desvendasse e que pudesse tê-lo no Sol de minha Terra, eu continuei comendo tuas palavras, fazendo amor em linhas cruzadas e sonhando, sempre, contigo. Contigo, conosco, com nossas vozes cantando juntas, ritmadas, esta narrativa desconhecida que se criara sozinha.
Deixo aqui este telefonema, Vênus, com esta voz aguda, para que assim, colocando tudo num quadrado, tu entendas que amoras, amoras mesmo, entende, as amoras desta colcha de retalho vieram de ti. Para onde foram desconheço. Sei que deixaram este cheiro fresco na cama e tuas palavras ao pé do ouvido, embora este desejo de mordê-las tenha ficado para sempre perdido com este sonho nunca materializado de viver no teu planeta-regente. Meu Deus, estou dizendo adeus! Alô? Alô? Me ouve daí? É que você não veio e deu de júlio se emprenhar de outro gosto. Sabe? Não, você não sabe e agora me diz como eu te explico isso sem olhos? Ah que esse Beirut nos ouvidos não me deixa abandonar esta vontade tórrida de transar com você numa cama branca ou roxa ou no chão, que seja, numa parede, eu sempre teria Beirut em meus ouvidos nesta transa de Luas, com teu ferrão de escorpião em meu corpo, cravado. Sabe que voaríamos, porque minha lua é alada? Sei que sabes.
Por isso, porque sei que sabes de tudo isso, que bordo teu nome neste recorte, para que nunca penses que passou incólume nas linhas desta costura. Pois se era contigo que dialogava verdadeiramente enquanto tecia essas cartas, contigo divido a autoria deste canto líquido de frutas vermelhas. Por isso também é que repito, solene, agora, nesta secretária digital:

Tua voz
Me faz querer teu corpo

Sempre o fará.
Desde que ouvi teu canto, me apaixonei por ti, Vênus, tu que és narrador e trovador de linhas roxas, tu que és surfista de ondas e sofás virtuais.
Mas parece que sou obrigada a abortar este sonho, para parir Outro.
Me liga?
Claro, claro, é que claro que eu te explico tudo.
Mas me liga de volta?
Hein?
Alô?
Alô? Me ouve daí?
Refazendo

Pedi licença para entrar e a benção para regressar, minha mãe, nesta revoada. Agora, depois do pouso, ancoro na terra e, mesmo assim, continuo a navegar.
Não paro de seguir...

***

Refazenda

Só sei que tem um mar e que carrego uma semente de mar em mim.
Aguardo.
E aguardo seu agosto amargo, Salva, na relva verde do plantio de Júlio. Em janeiro, o doce mangará, eu sei. E aí já seremos dez. E zero, de novo, Salvador.












Ryoko Suzuki, Bind Series

Era domingo, dia da semana nefasto para começos. Porque começar é sempre segunda ou, no máximo, sexta-feira. E a semana nunca começa verdadeiramente no domingo. Pois foi no silêncio agudo do fim de um domingo abafado e calorento que a personagem acordara. Despertara com um grande escuro de memória no juízo. Saiu do breu das coxias de onde havia levantado e caminhou até a boca de cena.

Encontrou-se com o vazio no espaço.

Um grande espelho, de ponta a ponta, tomava toda a extensão do fundo do palco. E só. O resto estava nu. Nada além de um calhamaço de folhas entulhadas no meio do tablado, com um grande foco de luz, branco e redondo, também ao centro.

A personagem aproximou-se da iluminação, mas não se pôs nela. Virou-se para o espelho, procurando algum indício do papel que deveria desempenhar naquela noite de estréia.

No primeiro olhar, a primeira queda: tropeçou nos laços da sapatilha desamarrada e caiu, exata, na luz. Foi de susto o tropeço. Na imagem refletida viu o horror de seu corpo mutilado: sua boca estava costurada com linhas vermelhas, secas de sangue. Tentou dizer algo, já de costas, atemorizada pela imagem do espelho, mas absolutamente nenhum tipo de som foi produzido. Nem um ruído sequer.

Não lhe doíam exatamente as perfurações da agulha. Era uma dor mais profunda, de corpo inteiro, que era reconhecida apenas por um eco dormente que surgia como se de dentro dela, e lhe parecia ser isso a prova de que não estava granulada nas imagens do plasma de uma tela: havia um corpo vivo naquela cena e lhe doía. Pôs-se a escutar aquela materialidade, quase encontrando um filete de voz capaz de tecer algum sentido, o sentido de estar ali.

Mas que sentir era aquele que também não lhe dizia? Onde estava o texto, a partitura da performance que deveria executar?

Não tinha nada decorado.

Nada dava a mínima pista do que deveria encenar.

Nenhuma linha garranchada nos papéis lhe indicava fala.

Só tinha ali a dor de ser, mas isso lá não é papel de uma personagem, pensou.

Assim nascia Ela.

Ela era seu nome. Melhor seria se chamasse ninguém, pensou ao olhar no espelho aqueles olhos arregalados à procura de si, já livres do medo de sua imagem deformada, já que aquilo era o que unicamente tinha de concreto para examinar. Tocou-se e mirou o retrato, repetidas vezes. Encontrou mais linhas nas juntas, costurando cada extremidade, cada dobra, como uma grande prótese.

Ela era escrita. Tinha corpo, mas não tinha voz. Mas havia algum tipo de inscrição naqueles remendos. Havia verbo costurado àquela carne, Ela tinha certeza.

As linhas aumentavam no fio das horas daquele domingo e mesmo o movimento foi lhe fugindo de controle. Ela perdia seu gesto livre, engessada no espaço de luz daquele refletor que já começava a lhe cegar.

Queria voltar para o engenho, desejou com os olhos fechados. Lá trocava livremente de papel e era infinitamente reinventada. Tinha sempre rosto, traços bem delineados, uma maleta cheia de maquiagens para as sombras e cores que bem conviesse. Lá se chamava nome, usava pronomes, executava verbos. Vivia em voz alta e mesmo quando emudecia, por vontade própria, era capaz de improvisar gestos balofos de sentido e olhares gritantes de expressão. Carregada da força inspiradora de mágicos pós de arroz, vivia o clímax das grandes cenas.

Mas por que diabos havia parado ali, se perguntava toda vez que abria os olhos para a luz e mirava o escuro daquela sala de espetáculo, sem conseguir lembrar do caminho que a fez chegar ali.

Será que havia parado num rascunho? Seria a imensidão daquele oco, entre um período e outro, o espaço em branco, o silêncio da pontuação?

Os hiatos de tempo, de cada alfinetada das novas linhas, a faziam escalar e depois girar, desalinhada, no chão da circunferência, num movimento involuntário. Neste ínterim, pequenos buracos começavam a se formar nos tacos do cenário, como se aquele feixe de luz fosse aos poucos se transformando em uma ilha.

Permaneceu assim por longas, mas longas horas mesmo, talvez nem fosse mais domingo e já nem houvesse mais tempo, nem espaço. Só havia a presença de Ela amarrada a uma luz.

Foi quando o eco quase inaudível que ouvia de dentro de si, aos poucos foi sendo amplificado naquilo que já não sabia se era de fato uma sala de teatro. A voz de outrem. Não decodificava o que ouvia, mas escutava, como um sussurro, a voz masculina de outrem.

Ela estava sob o domínio de um desses autores de produção aleatória e solta, quis gritar e cuspir e praguejar aquele que julgava seu carcereiro. Mas tudo que lhe restava era aquele sentimento mudo de processo criativo frustrado, de texto insatisfeito e, por isso, incessantemente reescrito, do pulsar indeciso do cursor de computador piscando. No engenho ela nunca sentiu os espaços vazios das pausas de digitação, aquele silêncio cortante que amarrava cada vez mais a sua carne.

Estou presa no inacabado, pensou, por dentro, cerrando novamente os olhos.

Ela não fazia sentindo no claro. Não tinha cabimento. Mal cabia naquela roupa apertada de bailarina seca, no papel envelhecido, na projeção que iluminava nada mais que sua silueta.

De repente, um barulho estereofônico se fez e uma valsa invadiu os ouvidos de Ela. Abriu os olhos e avistou novamente aquele pedaço de chão cercado de escuro. Aquela valsa tinha qualquer coisa que lhe dizia algo.

Era uma bela valsa. Melancólica como toda valsa, mas graciosa e grandiosa como todas elas. Havia um tom de urgência e uma alegria esboçada de quem sai pela vida correndo de braços abertos. A personagem era dramática, assim soube. E Ela era drama, isso sabia.

A valsa se repetia incessantemente, tornando-se progressivamente ensurdecedora.

Era a prova dos nove: a personagem tinha finalmente sido materializada e agora era capaz de dançar.

Não conseguia era tornar-se.

Ali Ela era a Outra e não aquelas que já sabia encenar.

Permanecia a dor de qualquer coisa como a transfiguração, uma plástica sem anestesia.

A valsa acelerava. Ela dava voltas, voltas e mais voltas, com uma forte impressão de que as linhas a faziam marionete de um passo certo e calculado.

Como era cruel e suado e custoso o parto de Ela.

Apenas uma grande pulsação de qualquer coisa sem nome que endoidecia na vertigem de voltas, voltas e mais voltas.

Só a matéria era objeto de sentido. Só objeto era Ela.

Foi neste clímax de valsa, nos passos robóticos de um balé amordaçado, que Ela se sentiu, pela primeira vez, verdadeiramente observada. Tinha certeza agora da presença, em algum ângulo, do dono dos ruídos de outrora. Aquela luz. Aquela bola de luz era um grande olho, entendeu. Ela estava sendo dissecada pelo olhar daquela luz branca. Não era capaz de distinguir quem estava por de trás do refletor, mas sentia os olhos do Outro sob si.

Sem mais nada a perder, e usando a única coisa que lhe sobrara daquela cirurgia de linhas tortas, encarou o grande olho branco do Outro.

Cegou-se.

Com uma pirueta suicida, caiu novamente no abismo do engenho, no escuro de uma gaveta.

Ela morreu valsando num domingo interminável.

Ela morreu nas voltas das linhas do Outro.

Muda e cega, como um nó, morreu a personagem.

Morreu no backspace de um teclado, no blackout de um palco.

Carta XVI - A Torre

Depois de cair, retorno. Mesmo assim, só de passagem.
Me vejo sozinha agora na torre do castelo. Ele está cheio, mas não me reconheço mais nas armações desses óculos, nessas t-shirts coloridas, nas estampas recorrentes de che, nas camisas de futebol da Bolívia, nos baseados mal-embolados por risadas estereofônicas, nos cigarros emprestados e nunca devolvidos, nas grafites de artivismo temporário, nos movimentos sociais instantâneos dos botecos da redondeza, nas máquinas empostadas para auto-fotos coletivas, na galera da pós-, nas verdades vomitadas em frases na 1ª pessoa, nos alargadores milionários de bambu, nos dreads de franja lisa na testa branca, nas havaianas gastas de embrenhagem, nos cartazes ambientalistas sob as bitucas de cigarro, nos gestos largos de ordem eufórica estudantil, na reprodução xerocada de orelhas e trechos de livros bíblicos, nas coca-colas de canudo nos punhos de pulseirinhas de couro, nos fios calculadamente desfiados em órbita, nos cabelos longos das camilinhas hippadas de shopping, no tempo livre de um turno para o outro deitados no chão do pátio de concreto, nos olhares pseudoatentos às apostilas lidas ao barulho dos universitários, em quem escreve sozinha, com fones de ouvido, no supermercado de estilos desta narrativa visual, e se julga olhada ao som de folk gringo. Não acredito mais.
Só acredito na imagem sincera daquele moço ali, recostado, forçando a vista cansada para ler a revista que distribui gratuitamente como uma cortesia da Abril aos universitários de plantão, que aguardam o início do turno da tarde, atentos ao roteiro da performance.
Jovens, escrevo. Que diabo é jovem e até quando isso dura?
Hoje? Hoje jovem é interminável, me responde a moça da mesa-redonda sem eu nem perguntar.
Vou-me embora, ainda com os hematomas da queda.
Não sei se volto não.
Não me reconheço mais aqui no alto.
Agora já podes entrar.
Senta.
E continua quando a escolha certa é parar.

Depois de um longo silêncio,
A senhora destino entra, senta, sorri.
Com o rosto inteiro sorri.

Como um corpo que dança, sorri.
Cada ruga, uma lembrança.

Cansadas as pálpebras
se curvam
e os olhos se fecham para ver-se

(Léo Mackellene no Livro dos mais pequenos silêncios )


A profissional de saúde disse que é uma bomba de endorfina a paixão. Que nem droga, pode virar vício, advertiu. É químico, nada mais. Somos viciadas em endorfina, ela disse. Mas, olhe, o iodo da cidade litorânea deixa a vida mais fácil e lânguida.

*

Ceci me aparece com sua palidez defunta na luz amarela de um dia de semana. Ela vem, anda um pouco, saindo do quadro de depressão do seu quarto de bonecas. Ela recorda amores nos meus ouvidos, me narra as cartas do 1º amor e ensaia a valsa dos 15 anos no círculo da pista de cooper. Já sei e mesmo assim ela diz que queria voltar atrás. Eu disse calma, que não se flui o que não é fluído. A paixão é uma coisa que te pega por trás e dá uma rasteira, Ceci. Por isso, pode andar olhando pra frente, distraída. Eu não sei passar, me disse. Eu também não sei. E agora?, provocou. Não espero. Até quando? Passo.
Meu tempo de menina me fita naqueles olhos carentes de vida real. Vejo o tempo que não passou, porque empacou na espera. O tempo que ficou na vida vazia de dois.
Ceci é a 5ª pessoa. A 5ª pessoa era Ceci.

**

Éramos cinco naquele dia. Relutei em sair de casa, destruída pela ressaca do anteontem, mas cedi ao convite insistente da 3ª pessoa. Impus uma condição entretanto: que a gente fosse pro lado de lá. E eu exigi, até o final, que o trato fosse cumprido.
Foi assim, com um cácácá mal-humorado de palhaça bêbada, de voz grave e palavrões sujos, que integrei aquela orquestra de agudos femininos abafados no carro que seguia confuso para o centro da cidade.
Paramos numa praça, finalmente por unanimidade, dessas com igreja na frente, crianças ao redor e, no caso desta, com um batuque ecoando vindo não sei de onde enquanto as carolas cumpriam seu dever na missa de domingo. Meus olhos foram imediatamente hipinotizados pela vista para o mar da cidade baixa.
Um largo muro nos separava do despenhadeiro que ligavam as duas cidades. Encontrei um coração inscrito na pintura descascada da pilastra e parei na calçada para enquadrá-lo. Foi nessa hora que João e Pedro atravessaram a rua de pedrinhas, intersectaram nossas retas e tremeram a minha foto.
Pedro tinha um par de contas verdes nos olhos que imobilizou os meus por todo o tempo daquele súbito e improvável encontro. Mas foi a voz de João que ouvi primeiro, quando, outra vez no impulso da aceleração do anteontem, fui atrás de movimento. Ele estava parado e só, na porta da igreja, enrolando um fumo, quando pôs seus olhos gelados e silenciosos sob os meus.
Começou ali e eu já estava no ciclo.
E foi Ceci que os convidou para sentar no bar da cruz, quando descemos todos a ladeira. Nenhuma delas teria tal impulso naquele momento, incluindo eu, que já havia ensaiado um.
Éramos cinco naquele dia. João escolheria qualquer uma das 5 para atacar. Talvez até mais umas do que outras, incluindo a mim. Mas ele sentou do meu lado, por acaso. João sentou do meu lado e Pedro uma cadeira depois. Ceci continuou à minha esquerda, doida pra que um deles fosse aquele que viria lhe tirar do abismo. Um dia viria, essa era a única certeza nos seus longos dias de nada. Mas Ceci tinha uma gagueira infantil, e continuou invisível para o destino e inaudível para os desconhecidos.
Ninguém seria capaz de ouvi-la, a não ser nós 4, que mesmo assim não aprendemos a deixá-la falar.

***
Entrei na casa como se algo mais forte que meu corpo, que diga-se de passagem estava absolutamente adormecido, me puxasse atrás da porta. Quando penetrei a primeira delas, um cheiro absurdo de memórias me encontrou. Tive águas nos olhos e arrepio nos pêlos quando imediatamente inspirei o cheiro da casa de minha vó pelas narinas. É o cheiro da casa de minha vó esse, dividi com os estranhos, que não entenderam quão imenso era o espaço pra onde aquele, físico, havia transportado meu corpo.
Era um cheiro de casa. Uma casa com cheiro de muitas décadas que descascavam a tinta das paredes, que enchiam de cupins as portas, que mofam todo o resto, mas que fazia, e fez, daquele chão terra firme para os meus pés.
Reencontrei o cheiro da casa de minha vó ali. O cheiro que já não havia. O cheiro, há muito morto no passado, da casa do corpo de minha vó que já não existia, da alma de todas nós que viemos de dentro dela.
Entrei naquela casa que virou abrigo, gaiola, mas que sobretudo deixou outro cheiro em mim. Um cheiro novo, químico e lânguido. Ali me estendi todo ciclo junino de santo antônio, são joão e são pedro. Ali expandi o ano que enfim se movimentava pra fora, pro lado de lá, no colo da casa de João.
Curei a terra no chão de sua casa, na casa de seu corpo. Tirei as sementes das mãos, pus na janela com o sol, para secá-las, e me adentrei nas quatro paredes. Sarei a insônia e fechei a ferida aberta pelo sal. Dormi, deixando um pouco de me perceber, para que aquele fluxo me levasse, sem pensar nem narrar nada. Foi a partir dali que entrei em ação. Na verdade, foi a partir dali que reconheci a ação, pois ela já havia começado.
Eu já estava no ciclo quando cheguei ali. Mas foi João quem me levou para sua casa, me tirou do mar, me pôs no chão e me deu um pouco de terra para que eu pudesse arrastar pé.
Para chegar em João criei rotas nos grandes e pequenos veículos de transporte, atalhos em becos e esquinas. E foi com ele que voltei a me aventurar no bonde. Subi, desci, andei, várias vezes, como num passo de dança nunca completo, pois nada daquilo se coreografava. Era impossível grafar o meu movimento com João.
Por isso, segui, distraída, passeando pelos caminhos cruzados das novas linhas em folhas e janelas, por texturas outras nas histórias dos intervalos do ponto.
Corria sangue novo nas veias da minha cidade. E eu começava pelo centro, que era a margem dela.

****

Eu queria ser que nem você, me disse, com seus olhos de inveja branca.
Somos iguais, Ceci, temos partes idênticas dentro de nós. Eu também rodo, rodo, rodo, até cair. Assim, apaixonada mente, como você. Só que agora, aqui, estou aprendendo a usar o bonde.
Deve ser o ciclo do retorno.
Carta XX - O julgamento

Medo de ser sugada como se fosse pólen, soprada como se fosse brasa.

Carpinejar

Que história é essa de tempo? Que necessidade é essa de norte?
Só não quero correr, respondo ao juíz, depois do sequestro de voz. Quero fluir. Não, não, mas não consigo assim... seguindo o fluxo de carros sem saber o caminho. Exatamente? Não, também não sei exatamente onde quero chegar. Sei que quero subir escadas, destrancar portas e escrever paredes.
Bebo um pouquinho pra ter argumento. Transcorro. Experimento. Esperei muito tempo. Perdi muito tempo. Não, não me faça entrar nessa maratona de onde não se avista ponto final. Ir assim, sem verbo, pra poupar o fôlego dos membros?
Não, não, não. Caminho e proseio num tempo só.
Esse tempo de ponto-parágrafo me erra.
Transformei a forma para caber no silêncio, admito.
Paro tendo que continuar. Continuo sendo que parei há muito. O personagem Sem Nome nem se dá conta e continua. Continua de olhos fechados, sem ninguém que não ele e os seus sentidos.
Então, respondo depois, só consigo mover a ação se entrar em movimento mais vezes, para que assim, na ladeira, sem freio nem acelerador, me permita soltar as duas mãos do volante para sentir o gosto do frio na barriga da montanha-russa que é o tempo a dois. Neste dia, será súbito e não à segunda, à terceira, à quarta vista. Neste dia, não farei de ti mais personagem, Sem Nome. Pois escreveremos juntos, à 4 mãos e pernas, o passo do tempo real, livres dessa voz narrativa de quem se julga escrivã de cartas e relatos.
Mas por que fluir o que não flui?
Passo.
E ando de mãos entrelaçadas no nó frouxo.
Verdade que caminho sem juras e perco os dentes de leite, aos poucos.
Tenho é medo, Sem Nome. Vez em quando vem e bate e não escapo. Boto teu Sem Nome misturado aos condimentos pra virar tudo uma coisa só. Tenho é medo, Sem Nome. Olho pros lados, pro horizonte de possibilidades, pros olhos de Ceci. Tenho medo da tolice outra vez. Não, não me segura. Deixa que eu atravesso só. Tenho medo de ser atropelada. Tenho medo de cair. Me seguro, segura. Cai. Não cai. Cai. Não cai.
Cambaleio na minha confusão.
Admito, senhor juíz, eu gosto mesmo é de valsar. Gosto de valsas e cornetas.
Tenho medo do tempo não. Só não quero rodar outra vez. Rodar, rodar, até cair, só, na tontura seca e ávida. Marinheiro sou. Deixa que eu atravesso só as ruas do meu entendimento cego.
Se não posso narrar-te minhas linhas, não me amarre no nó do teu silêncio-sentença.
Acho que quero parar, confesso. Acho preciso a pausa deste ponto final, ainda que parágrafo.
mantra para insones

dormir. dormir. dor mir. dor mim. (respiro) Dor (inspiro) mir (expiro) ___ (______) ___ (______) Dor mi. Dó mi. Dormir. Dôdôdôrôrôdôdôrmir. Durmir. Drumir. Dudurmir. (rap) Dududurmir. (improviso) Dormir. Dor ir. Dô mim. Dô mi. Dó ré mi. Dormir. (bocejo) Hum rum.
(repete)
cada dia,
um passo

se não,
tropeço
trompasso

atropelando tudo

se sim,
atraverso

passo a passo
de it a post-it
cada dia,
eu passo
Abandonei o longo silêncio, o ponto-e-vírgula da insônia, as madrugadas de espremer palavras da memória. Retornei ao grafite, este mineral, escrevendo sem pensar se acompanharia ou não o tempo real, se as letras seriam ou não pregadas em post-it. Larguei a terceira pessoa e a espera por enredos.
Sim, havia uma confusão de nós, um emaranhado de vozes, a perda das pontas do fio da meada.

Mas que meada?
Mas que tola tentativa de dar sentido foi essa?

Não há direção
Não há extremidades
Não há fixo
Não há o todo, concluo.

Não há corpo no texto.
Aqui reúno somente o estilhaço de fígado, pescoço, pernas e afins.

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Pulo linhas para um novo começo.

A pauta me faz parecer ainda mais partida.
E o desejo de completude é o que me mata.

Morro.

Giro em espiral
no caldo vermelho-sangue
nas ondas de sal
desta panela.

Não chego.

Mexo
Remexo
Não caibo.

Retorno às esperas e ao abandono das mulheres.

Leio para chamar o sono, mas já bocejo.

Páro.

Assim renasço.
Cada dia,
um passo.
Sempre virá. A solidão não existe. Nem o amor. Nem o nojo. Odeio quando te enganas assim, girando entre as panelas. A vida é agora, aprende. Ainda outra vez tocarão teus seios, lamberão teus pêlos, provarão teus gostos. E outra mais, outra vez ainda. Até esqueceres faces, nomes, cheiros. Serão tantos. (...)
Tenho medo de continuar. E não suportaria parar, ondas de Iemanjá.
Caio Fernando Abreu em Dodecaedro


Começo da noite: eu disse à 4ª pessoa, citando Rosa: o que a vida quer da gente é coragem. Mas ela foi embora antes, e perdera o mais grandioso dos momentos.
Começo do dia, fim da odisséia, só as 3 agora: tá vendo, Doralice, a vida só se dá pra quem se deu; pra quem se deu no início, sem pedir nada em troca; nada além do que o universo ofereça, no horário que for, mesmo que haja aula, trabalho ou faltas demais no sábado de manhã.
Foi a mesma conclusão da semana que antecedia o carnaval. E me lembrei da primeira noite de Paco na velha cidade. Depois de uma longa seca e outonos invernos e meses de abstinência de seu passo, eu disse, de manhã, com a cara de ontem: viver é melhor que sonhar; viver é melhor que lembrar, Paco.
Saímos do inferninho com o dia claro de verão e não hesitamos em nos jogar no mar, de jeans e tudo, embora tenhamos trazido mais areia do que lavado a alma suja de madrugadas de esperas e saudades.
O que mais nos intrigou, no entanto, foi o cheiro de lavanda que nos invadiu. Lembro, como se pudesse sentir aquilo tudo de odores, cores e sons, quando nos aproximamos da beira, para primeiro molharmos os pés, naquele espetáculo imenso de pedras, ondas de alto diâmetro e pouca faixa de areia. Respirei um cheiro forte de alfazema, o mesmo das oferendas de Janaína no dois de fevereiro. Inspirei de novo. Novamente o mesmo cheiro. Olhei pra Paco com os olhos arreganhados de crença e dúvida e, antes que dissesse qualquer coisa, Paco me perguntou se eu também sentia aquele cheiro forte que nos invadia. Com a confirmação um do outro, outra presença se fez entre nós.
Foi o primeiro dos muitos dias de mágica.
E foi ali, no buraco do Rio Vermelho, que começamos a entender, através dos sentidos, a força estranha da terra de todos os santos.

*

Fui catar pedras naquele sol inacreditável nas primeiras horas de dia claro, depois de o dia anterior ter desabado em tempestade que impediu os mais prudentes a não arriscar nada naquela sexta-feira. Era uma linda manhã que se formava enquanto nós dois e toda a trupe ibérica passávamos a chuva grossa no calor suado de mais um inferninho. Catei as pedras nas poças de água da maré incrivelmente baixa para um mar de ressaca. Avistei uma pedra grande, dessas que guardariam boas recordações numa prateleira. Duvidei que estivesse solta, mas estava. Sei que, sem muito pensar, virei de costas e, vendo Antonio sentado abraçado aos joelhos em cima de uma pedra, disse “magma”. Mostrei a ele, em uma das mãos, vermelha e molhada, aquilo que era como um presente, qualquer coisa como uma oferenda. Afirmei, sem nem saber se era geograficamente correto fazê-lo, isso era magma, era vulcão. Olha, antes, não seria capaz de segurar assim, sem me queimar. E agora é frio, é sólido e, ó, era parte dessas pedras grandes e agora é só um pedaço. Foi a chuva que partiu essas rochas que trago nas mãos, os dias de tempestades de ondas e caldos que soltaram esses pedaços, pensei e não disse, já que nem tudo acompanhava a cena pela oralidade. O gesto já era por si só carregado de sentido. Mas disse, toma essa pedra, a maior delas, leva contigo como um pedaço de lembrança sólida deste alvorecer. Toma essa manhã que lhe enviaram, esse pedaço que a terra te cedeu. Eu coloquei a pedra na mão de Antonio e disse: era assim que teu povo devia ter aportado nesta terra: sabendo pegar só o que ela oferecesse. Antonio me olhou com seus ardentes olhos de mel e, naquele sorriso doce de quem estava em trânsito, de quem partiria a algumas horas dali, me disse, o que tomei como sincero pela solidez daquilo que ele guardava em um dos bolsos, que nunca se olvidaria daquele instante.
Eu nada pedi, nem roubei.

**

Os estrangeiros brincavam de circo na praia do buraco. Eu, nativa, andava em direção ao ponto da praia onde quase morri naquela quinta-feira de carnaval. Quanto mais me aproximava, mais forte as ondas me buscavam na beira, como se tivessem ímãs as minhas pernas.

***

Olhamos por muitos minutos o espetáculo das ondas batendo no mar. Olhamos em silêncio, por muitos minutos. Era bom o silêncio para observar aquilo. Não precisava de palavras para entender porque não era algo que se entendesse: só os olhos eram capazes do prazer estético de assistir a particularidade de cada uma daquelas ondas quebrando no mar. Aquilo não se traduzia, não se fixava em idiomas.
Rúlio quebrou o silêncio me dizendo que queria um barco para sair navegando. Como um Marinheiro, perguntei com auto-ironia. Si. Tem que ter coragem pra furar essas ondas e alcançar o alto mar, né? Rúlio respondeu que exatamente essa era a graciosidade de se navegar; e era meio como o ciclo da vida, o redemoinho das horas. Como os surfistas são corajosos, disse rindo, já com a cuca encaracolada na onda; já longe, talvez numa ilha. Mas eu queria era estar todo cercado de mar, ele disse. É, afinal, os surfistas sempre voltam pra terra, e estão com o pé amarrado numa cordinha, complementei a fala. Eu queria um barco, Rúlio disse, e queria só ver mar na minha frente.
Voltamos ao silêncio.

****

Lembrei que ela havia me dito que era melhor assim, que era melhor não dizer adeus. Despedidas são doloridas, ela disse e eu não esqueci. Era melhor não cometê-las.
Chegada a hora, já com o sol a pino, recusei-me a rabiscar endereço, a gravar números, sem nem saber quão dolorosa seria, horas depois, aquela perda de terra firme, a impossibilidade para sempre de retorno, de cruzar nossas rotas no mapa. Nunca mais veria aqueles olhos de sal, esses olhos de mel. Mas Antonio levara na pedra, a maior delas, a miudeza de minhas palavras e a imensidão daqueles minutos mágicos que só a nós foi dado. Eu levaria apenas, ou melhor, tudo aquilo que se resumiu aos fios laranja, ressaltados pelo sol na barba negra que roçava em meu verso, enquanto dormia no trajeto de despedida. Foi só a metáfora daquele instante que levei comigo. Aquilo e um gosto amargo da madrugada-dia. O gosto de quem chegou tarde. O navio de Antonio partiu logo, horas depois.

*****

De volta ao quarto, quando incrível e ocultamente a chuva já molhava a janela, ainda na mesma manhã, como se o sol tivesse sido secretamente só para nós, Doralice me perguntou por que sempre tinha que acabar. Eu disse que não sabia, mas era bom o que já havia sido, ainda que eu mesma tentasse me dissuadir daquele gosto de fim, dissolvendo em outras doses a sede que Antonio deixara em mim. Depois de todas as pedras distribuídas, me restaram duas. Escolhei a mais bonita delas e dei a Doralice.
Dois dias depois, rumamos, novamente com a 4ª e agora mais a 5ª pessoa, para o centro histórico da cidade. Caímos numa praça, num bairro chamado de Santo Antonio e cosmicamente tudo recomeçou no semblante de riso de novos marinheiros a nos apontarem o mar de estaleiros na escadaria da cidade alta. Doralice, eu bem que te disse.
Mas não espere nada, Doralice. Isso lá é tolice.
Carta XXI - O Mundo

Tempo, tempo, tempo, tempo
Entro num acordo contigo
(“Oração ao Tempo” - Caetano Veloso)


Recolhi o jornal espalhado no chão da sala de estar. Devolvi a louça à cozinha e sentei-me para escrever a primeira das vinte e duas cartas. Senti um enorme contentamento em ver, na volta, o branco da página sem pedaços de rascunho a serem amarrados. Tenho aqui a verdadeira liberdade do novo: o título do símbolo, uma epígrafe e a página em branco, que me esperam apenas há alguns minutos no documento recém-salvo, mas que simbolizam uma espera muito maior. Foi esse mesmo sentimento que tive quando, nesta última manhã, acordei afoita para um intervalo de água e me deparei, ainda sonâmbula, com o chão do quarto-sala iluminado por um amarelo firme e convicto. Meu peito se encheu de alegria com a volta do sol. E, mais ainda, com a paisagem daquele antigo quarto, nunca habitado propriamente, transformado no meu canto, limpo como esta página, mas já com a minha presença ancorada.
No dia anterior preparei-o para receber visitas e finalmente tirei do armário um pôster que comprei no museu, separado especialmente para quando alugasse meu apartamento próprio. Foi um dia em que acordei decidida a fazer as pazes com a outra e ela me deu bom-dia com aquele sorriso velho das tempestades. Chorei um pouco quando senti as feridas secas, magoadas novamente nos membros amputados, mas não desisti. Pus música e cantei alto, arrumando o quarto de dormir e o quarto de acordar, peguei o durex e preguei Tarsila na parede. Brazil. Body & Soul, é o que tem escrito.
Não trouxe tudo. Algumas partes de mim mofam ainda, enterradas no depósito, entre lonas e ratos, à espera de mudança. Mas é com este gosto de palco nu, de pano de fundo, que, enfim, começo. Aproveitei a estiagem e comprei uma tela, uma caixinha de tintas guache, dois pincéis, massa de modelar e um baralho. Já estou preparada pra quando a chuva chegar novamente. Já vai encontrar sementes e a terra preparo aqui, agora, para o novo jardim.
A parede do outro lado, oposto ao cantinho do cruzamento de rodapé de onde escrevo, é verde. Um verde bonito de tinta fresca e percebo agora como encontro finalmente o doce do cenário de cores desta nova casa. Respiro o ar ventilado dos espaços vazios desta sala-ateliê, sorrio e canto como Bahia. Tenho fôlego de sobra para mais de vinte e um dias.
Pensei, hoje, enquanto caminhava agradecida nos primeiros minutos da noite na beira-mar que me cerca, no quanto tenho dado novos tempos pras coisas. Me dou mais de um, dois ou, quem sabe, três anos pra conseguir sair da Casa da Mãe, dessa vez caminhando com as próprias pernas, e talvez mais de seis meses para conseguir um emprego de quatro dígitos. Na verdade, nem penso em números exatos, só nos plurais: anos, meses, dígitos. Não acredito mais é no imediato, no instantâneo, no agora. Do agora quero apenas a brisa, o prazer de andar, o passo compassado ao ritmo do tempo. Pois só agora sinto a felicidade do ponto final de outrora, do ciclo fechado, da conclusão do caminho iniciado pelo Louco.

Vejo aqui nesta sala os primeiros galhos do broto que germina em equilíbrio com a Mãe, com a Terra. Enfim sinto e vivo a chegada do esperado. É aqui o lugar seguro que busquei para criar asas. Asas, no plural, pois uma delas já desenhei antes de abandonar a maquete. Chegou ao fim, portanto, aquele ciclo de observação do outro lado, do interior, do centro do território, do eu-lírico dramático. Descobri uma fonte nova e própria de ar e de cor. Quero agora a outra parte, para o esqueleto do que será inteiro só depois de muitos anos, meses e dígitos lá no final da última história. Vou desenhando, esboçando, procurando novas imagens, traços, tons, com meus pés novamente descalços no útero de minha Terra. Arriei guardas malas arquivos e fico. Encontro paz com a outra, com o chão, com o espaço, com a mãe. Fizemos as pazes em silêncio. Arrumo, agora, o palco para os novos cachos e deixo a menina dançar, sem cessar.
O movimento é o gerador elétrico do novo canto.

Reatualizo as energias do con.tato com a magia deste Cosmos.
Transcrevo esta carta com o que escuto do universo, que aprendo, bem devagar, a ouvir.
Neste ritual, emudeço para ouvir os cânticos, para tocar os búzios. Saio das quatro paredes deste birô de palavras e me lanço na janela, de braços abertos, para o novo velho Mundo.
Danço com ele.

Deslizamo-nos, como um só, em barras de rolagem.
Luiza Breu me reapareceu na sombra de uma grave tempestade que se formava, há dias, no céu da cidade. No escuro do cômodo, entre as nuvens negras da janela, que antecipavam a noite que não terminaria, avistei a moça, recostada na parede, a recortar cicatrizes no próprio corpo. Ao seu redor, bacias de água onde boiavam restos de folhas de papel.
Ao notar minha presença, ela me olhou fundo, com os olhos inchados e disse “os abismos. novamente os abismos”. E assim, pôs-se a perguntar, repetidamente, a cada retalho, entre lágrimas negras de lápis de olho, por que eu não havia lhe dado enredo melhor. Diferente, ao menos, questionava furiosa.
Não fui capaz de verbalizar um só signo, como se tivesse em minha frente um fantasma que me roubava a voz. Continuei apenas mirando a cena, de um canto do quarto, onde só era capaz de mover os olhos e escutar, junto com a tormenta das águas que já desabavam, os refrões que Luiza Breu repetia em ladainha.
Quando a noite se espalhou uniformemente em seu manto, ela saiu de cena e era agora eu quem, sem dar-me conta, repetia os mesmos gestos, como que tomada por aquela aparição já ausente. Percorri cada uma das feridas da carne, lhes devolvendo vida, solfejando as mesmas notas das partituras de Breu. Novamente os abismos, a velha espera, o abandono canalha de Luiza.
Já consciente da manobra, então, acendi os abajures de lâmpada negra, em busca de respostas e alguma luz. Foi quando me deparei com as minhas letras, em pedaços encharcados de papel, inundando todo chão do quarto. Ela havia derramado as bacias de mentira antes de partir, me obrigando a permanecer presa, como ela, ao que eu criei. Foi assim que fugi, novamente, para a terceira pessoa. Era a única saída para conter a enchente em que se transformou aquele novo canto.
Sou eu quem não existe, escrevi com um risco forte de lápis pontiagudo. A busca vã por quem não existe. Ela não existe. Ele também não. Só existe a falta, a ausência, a busca, a vontade, o desejo. Tudo só se dá no corpo. O resto não existe. Os elos não existem de fora pra dentro. Só existe o que é de dentro pra dentro. E as cicatrizes, o que são? Sim, as cicatrizes estão no corpo e só elas carrego no peito. Peito não é coração. Coração não existe, seresteiros. Não acredito mais nestes versos que canto. Quero só o que existe, sem sombras, sem imitação. Quero, antes e depois, a terra, o barro, a lama. Chega desta inebriante garrafa de palavras ditas, repetidas, cantadas, gritadas na embriaguez. Quero mais monólogo não. Compro tintas. Vou pintar poesia tátil. Arranjo argila. Faço cinzeiros novos. Distribuo para os amigos. Fio terra. Quero mão na massa. Massa de modelar. Sugue essa energia de restos. Devolva novas. As de gesto. Devolva-me, terra. Sem mais vozes sós. Anseio por corpos. O legítimo pulsar das veias. Que seja o vício desta fumaça entrando e saindo, ao invés destas alucinações instantâneas de janelas abrindo e fechando e piscando. Os aparelhos que separam canto de performance. As técnicas de fragmentação. Os perfis falsos. Risadas mudas. Quero mais não. Quero é muito. O muito dos pequeninos silêncios da respiração. Busca vã pelo que não existe? Corro para o chão da rua. O chão da pista existe. Danço de olhos fechados até chegar o suor. Expiro canção em outra conjugação: cordas vocais concordam com o balanço do esqueleto que por sua vez regem o pós-movimento das línguas unidas. Inspiro? Só ar. Abro bem os tímpanos para a freqüência de histórias baseadas em fatos reais. Biografias e organismos vivos. Quero o que existe. Sei fazer ficção não. Troco os milhos espalhados deste alfabeto pela grafite de madeira. Posto, não publico. Copiem e colem. Não há direitos, não há autorais. Isto não está à venda. É apenas empréstimo de palavras. Download-emos! Sou incapaz de seguir os livros de receitas na ordem e medida certas de ingredientes. Misturo tudo. aquarela, recortes, lantejoulas, fitas, colas, lápis de olho, panfletos, cartões postais, bilhetes, páginas de caderno, guardanapos amassados, letras de música. Mas sou água e esta interface é líquida. Borra tudo. E eu não existo neste borrão. Não se vê ninguém na sombra. Só na luz. Sou a voz do esboço, do rabisco, da rasura. Matei Edith. Nada de revisar postagens. Não quero me corrigi, quero dizer. Assim, com cortes no fio da meada. Costurar meus botões no próprio corpo. Nada de contar palavras. Não sou eu a dona da voz? Ah, tá. Então, estamos conversados: não há copydescagem nem acordos ortográficos no preparo desta cabidela. Eu disse ao Outro: você não existe. Mas quem não existe sou eu.
Ela acordou mais uma vez, mas só agora decidiu se levantar. Afastou os lençóis, que há dias não se estiravam na cama, pôs os pés no chão e observou, por minutos, a confusão de papéis, miçangas, cinzas, roupas e mais uma infinidade de objetos revirados pela cabine escura naquela silenciosa manhã. Ouviu os passos do hóspede lá fora e decidiu segui-los, buscando esquecer um pouco do caos do tempo e do espaço.
Reparou em tudo fora do lugar e teve um impulso enorme de limpeza e arrumação. Mas impulsos tinha muitos e tudo que fez foi sentar-se novamente entre a poeira e esperar pelo nada. Ele a fez mover uma, duas ou três vezes mais de lugar, mas tudo que ela pedia era diálogo, por favor, ouça e diga. Ele pôs novamente os fones de ouvido e disse comece. Ela lhe mandou lavar pratos, pois era ele o culpado da maior parte daquela sujeira de restos e, assim, rude e muda como aquele céu, isolou-se na proa para tomar um pouco de ar na trégua da chuva.
Um sol envergonhado de outono iluminou a palidez de olheiras fundas. Entendeu que estava novamente na estação passada apenas quando notou a grande quantidade de folhas secas que o vento havia trazido junto com o assobio enlouquecedor que acompanhava suas madrugadas insones.
As folhas a levaram novamente ao píer que desembarcara em Manhatã. À imagem da ilha nublada na primeira aurora do domingo de outubro. À sombra da liberdade vigiada, vista de longe, na iminência de uma explosão. Ao vento sombrio de quem via, pela primeira vez, aquele chão desconhecido se aproximar dos seus pés, marcados por outro setembro, também de morte, como era a borda do rio que envolvia aquela cidade.
Não, balançou negativamente a cabeça por segundos, enquanto acendeu seu quarto cigarro na sequência, eram os fotogramas rápidos do mesmo tênis desbravando as ruas sujas, indo quase sempre pra lugar nenhum, que queria recordar e mostrar a ele. Queria contar da força que brotava de si na travessia de ruas numeradas, na proporção que aumentavam seus pêlos, seu peso, seus quilômetros rodados. A força que a levara até ali.
A pintura borrada daquela manhã e as folhas secas naquele chão, entretanto, apenas remontavam seu cenário de solidão em Manhatã. O esconderijo do exílio compulsório. O alheamento na multidão estrangeira. Os não-entendimentos fonéticos, semânticos e comportamentais. As lembranças trazidas pela proximidade do inverno, provocadas pelo vazio do hiato. O grande frio interior abafado por malhas e lãs.
A sensação que ela sentia era qualquer coisa como estar pelo avesso, quando assistia o despir das árvores imaginando os que ela amava entre as novas e verdes folhas da outra temporada, da primavera que prosseguia em sua ausência. Sua vida continuava andando em algum lugar sem seus pés? Onde, exatamente? Era aquele o lugar certo? O tempo certo?
Eram iguais as perguntas do outono tropical. Ele a trouxe de volta com o barulho da porta se abrindo, veio em sua direção enxugando as mãos na bermuda e perguntou se ela podia dar-lhe algo que não fosse silêncio. Ela só o queria ali, mudo, quis dizer, para amá-la em sua solidão. Perto, dentro de casa.
Pediu, então, calada, apenas abraço para suportar o novo frio sem sobretudos, sem entretantos.
Ele deu.
Talvez devessem parar por aqui.
M a r i n h e i r o s ó


Para os marinheiros todos, este em especial.


O que chegou junto com as palavras claras como se ditadas por alguém visível, tangível, solto dentro de casa, foi um cheiro a princípio sem nome. Um cheiro grosso, nem bom nem mau, um cheiro vivo de coisa em constante movimento, um cheiro vivo de coisa grande cheia de miúdas infinidades de outras coisas também vivas dentro dela. Custei a reconhecê-lo, há muito tempo não o vejo, e é mais difícil talvez identificar um cheiro ou um gosto de algo distante do que uma imagem. Não havia imagem. Era como o vento. Ardia na pele, feito tivesse sal. Tinha sal, esse vento que não era vento. Era um cheiro de mar, reconheci por fim.

[Caio Fernando Abreu em "O Marinheiro"]


14 dias antes

Março também vai passar, esta era a certeza equivocada. Decidi ir à praia naquela noite e melhor que fosse só, se a ninguém interessasse esticar o verão. Levaria trocados e chinelos calçada afora, mas por nada perderia a voz da doce bárbara, ecoando no porto da barra.
As irmãs se juntaram a mim, mesmo eu dizendo que sabia ser só. E, alegres em sermos nós, unidas outra vez, nos juntamos à multidão de não-identificados, na geral de show gratuito de praia.
Meu nome é Gal, ela começou lá do alto mar, enquanto eu, lá da praia, procurava ouvir os gritos que já não se ouvem. Ameacei me jogar, em meio aos avisos dos preocupados com a maré.
Um medo inaceitável surgiu com a lembrança do quase-afogamento daquela quinta-feira de carnaval. Lembrava do sufoco de estar no redemoinho de ondas sem conseguir voltar. Sabia que não podia subestimar o perigoso magnetismo daquele chão. Entretanto, com a inquietação há muito consciente daquela em-si-mesmação covarde e com a vontade já irreprimível de me juntar ao cardume, me atirei na água, para pegar os acordes daquele velho navio.
Era por Paco, peixe e cigano como eu, que me deixara alguns dias antes e ficava mais velho no dia anterior, mas era, sobretudo, por mim, pela parte que sabia de si, que nadei até o barco e me juntei aos bárbaros.
Quarenta anos depois, lá estava eu, entre os que não tinham tempo de temer a morte, vivendo em coro os hinos da outra geração. Geração que me chamou de volta, que me afiliou.
Cantei, grave e só, à minha honey baby.
Do cais do porto, dentro d’água, ao olhar as luzes da ilha, lá de longe, com a cidade em minhas costas, dei adeus à grande obsessão. Virei as páginas de fevereiro e esqueci os reencontros de folhetim. Chega de saudade. Chega de saudade. Chega.
Nada era maior e melhor que aquela força estranha da velha cidade me acolhendo de volta. Estava ali retornando a minha terra, que me recebia pelo porto, me conduzia pelas ondas e levava embora o meu cansaço. Meus olhos, afagados pelo sal, emudeciam meu canto para que pudesse reconhecer, através deles, a certeza que nascia diante da brisa mágica da beira-mar: minha voz estava ancorada naquele porto.
De volta às areias e ladeiras, comigo, a distração dos que vivem soltos, a dispersão do vai-e-vem. No caminho de casa, notei nos dedos que Iemanjá levara meu anel em troca. Nada mais justo.


7 dias antes

A maga diz que algo lhe diz.
Eu digo: teses pálidas de vida.


1º em 2

Era o último dia de verão na velha cidade. A cidade que passa o ano esperando pela nudez do calor acima dos trinta e aguardando um novo momento de paixão ensolarada. Depois das teses impressas, não havia destino melhor que a rua. O lado de fora, os pés descalços na areia. O se balanço da última embriaguez do fim de estação.
Encontrei Clarice no primeiro tempo, na sala preta, por grata surpresa, apesar de ir de encontro ao esperado relaxamento dos olhos e da mente castigados por madrugadas de revisões em 180º, pelo frenesi dos viciados em trabalho. Os últimos sete longos dias de academicismo nas próprias letras, de cortes e acréscimos braçais no próprio corpo, de autismo poucas vezes interrompido pelos cigarrinhos de intervalo fervilhava-me ainda na cadeira da sala de espetáculo.
Mas quase no final, Clarice gritou
Avidaé-um---------------------------------soco no estômago.
A narradora disse soco no estômago, assim, de um modo exato.
Só isso freou o trânsito entre a babel de vozes que me acompanhava, há dois anos, nas tormentas dos loucos, dos gigolôs da arte, dos que só olham, só comem a fome, só, vivem ilhados na verborragia de ecos e cacos.
Meus olhos foram tomados de líquido por todos os lados. Sem nenhuma nitidez, com a visão mareada, concordei, muda, com o corpo dando sinais involuntários de vida, de distensão de músculos, de silêncio para ouvir.
Ali começara o primeiro tempo de ebriedade, que deu lugar a um novo apenas quando coloquei novamente os pés nas areias do porto e comecei efetivamente a me balançar de outro modo, com uma cadência de riso, de melodia, mas com os mesmos olhos nitidamente ébrios. Foi nesta hora de brisa, possivelmente em câmera lenta, que, ao olhar para trás, meus olhos tropeçaram nos olhos do Outro.
A lentidão, entretanto, que fazia dos meus olhos só sossego e descanso, não me permitiu outro gesto senão dar as costas e retornar ao vento de maresia. Mas o Outro estava andando e, por isso, veio até mim e perguntou se era urucum parte das linhas vermelhas que avistou nos meus ombros. Era a frase mais imprevisível que chegara aos meus ouvidos naquele novo tempo e não hesitei, nem por um milésimo de segundo, em dizer em voz alta e bêbada o que de fato era. Não me lembro de nada que disse, só sei que foi com gestos largos e palavras organizadas ao acaso. Lembro também que ele riu, diversas vezes, o que revelou belas linhas por detrás de fios e pêlos castanhos. Foi aí que parei e roubei-lhe um beijo.
Já não me lembro dos números nem dos segundos exatos, só sei dizer que, dado o ponto de partida, ele me sentou na areia, me enrolou nos seus braços e me calou as teorias e os psicologismos todos. Depois perguntou subitamente se eu era de peixes, sorrindo ainda mais ao ouvir a confirmação e ao dizer que também era.
Me levou pela mão areia afora, para cantos de outro mapa. No mais escuro deles, me pediu secretamente que acarinhasse sua solidão de peixe de cardume. Reconheci ali um Marinheiro e nele, a minha mesma solidão de nômade.
Levei-o para o meu canto, no quadrado recém-habitado, a partir de então tomado efetivamente como casa. Foi lá que provei do seu sorriso raro de caninos afiados, emoldurado pela barba espessa, dos olhos de menino que era, das mãos delicadamente firmes do norte e onde, principalmente, me embriaguei da sua leveza de andarilho, de quem não se fixa.
Ele provou que nascera no dia seguinte ao meu, dois anos depois, e se despiu do anonimato da rua, mudando o tom para uma voz desarmadamente tímida. Entrelacei suas pinturas aos meus riscos de pele, enquanto amanhecíamos com sussurros, murmúrios e líquidos o outro, que era ainda o mesmo dia.
No silêncio que antecedia o primeiro sono, sem olhar nos olhos, mas com a voz bem perto dos meus ouvidos, perguntou “por que você tá só?”. Disse que todo mundo tinha viajado e por isso os quartos vazios. Mas ele insistiu: “não. por que você tá sozinha?”. Sorri, mas não lembro o que disse. Só sei que não respondi.




Bom dia
Repetido várias vezes em sorrisos, agudos e afagos.

O trânsito contorna a nossa cama, mas daqui ninguém sai.
Decretou-se feriado nacional e eu quis dizer:
faz do meu corpo a tua morada.



Boa noite
Várias em uma só.

Amanheço com a madrugada para ver novamente seu rosto iluminado pelo filete de sol vindo da janela. É dia, mas aqui dentro os ponteiros ainda se espreguiçam. Vivo da poesia dos meus dedos entre seus fios, da minha mão descendo pela sua pele, do beijo e do cheiro para voltar a dormir, mais uma vez, com violões ecoando pelas paredes nuas.
A tua presença entra pelos sete buracos da minha cabeça.
Não durmo.
Sonho reescrevendo o que já está impresso.
Fico acorda.
Gravo tuas linhas para ler na partida.



Sem adeus e lenços ao vento.
Ele foi e eu vôo pra longe.
De volta à superfície,
o soco de realidade.



Vamos viver, os grilos pintam e daí?

Uma semana

Eu não sou daqui também, Marinheiro.
Estou na mesma busca suicida pelo que não é, pelo impossível, pelo mundo dos sonhos extraviados.
Eu não tenho amor e aporto nesta baía, como tantos outros, para desbravar o continente, o velho novo mundo. Para encontrar, antes de novas partidas, a mim mesma nas cicatrizes desta terra. Do mar, levo o infinito do horizonte, o que avisto desta janela.
Não volto à mesma estação. Quero a preguiça de quem fica.
Não quero o vagão de novo, a jornada que nunca chega a lugar algum, as tempestades intermináveis sem a bonança do tato. Quero a distração durável, o toque do alcance, a temporada de colheita.
Trago teu talismã, com a esperança de bons ventos, mas volta e meia desacredito dos amuletos e os encaro como pedras, olhos de boi estupidamente arrancados pelos que querem prova, posse, sangue. Já tirei o sal e sigo na cadência de bênção do novo tempo por ti inaugurado.
Eu não te espero, Marinheiro, porque tu não volta nem eu fico.
Não me atrevo a pôr uma pedra no leito do teu rio nem é possível parar minhas ondas nesta maré. Sou só e meus encontros foram sempre despedida.
Portanto, se foi por falta de adeus, tchau.
Esquecerei teus traços perdida na multidão de Outros.

Abril

As frases voltam, aos poucos, na lembrança estilhaçada.
Junto os cacos para um mosaico.

Três

Grávida de fluidos, inundada de fluxos.

Cinco

Preciso não dormir.

720 horas depois

Abril pra fechar.
Volto, encosto a porta e abro a janela para a brisa. O tempo está parcialmente nublado, mas a poeira do vento inundou toda a embarcação. Volto às páginas deste diário de bordo para examinar a epiderme.
Os sinais não são exatos. Cartões postais sem letra e imagem, folhas em branco, gestos abafados pelos temporais de silêncio. Noto e registro alguma esquizofrenia nos ponteiros da bússola. A carta indica mais uma trilha dos enforcados.
Desvio.
Navegar é preciso.
Lancei ao mar algumas palavras e jogo o último nome na lista de personagens. Mas não pesquiso mais base de dados. Aparei as arestas. Continuo apenas com estas quatro.
Este barco continua sabe-se lá até quantas linhas. E leva este canto pelo avesso, que só principia no final e, por enquanto, só se entende só. Quando nada mais couber nesta panela, chega.
do transe à transa
da transa ao transe
adeus,
trânsitos
tchau.
reencontros
Um instante de dois
Sem mais, nem pra depois eu te dizer
Que eu te amo
não te amo
demais
(cibelle)


Ela pensou que o melhor mesmo seria reencontrá-lo num lugar comum. Ela imaginou, primeiro, uma locadora, mas ela não freqüentava locadoras, então, pensou que talvez pudesse esbarrar com ele na banca de cigarros da esquina. A carteira cairia no chão, junto com algumas moedas do troco e ela poderia estar desarmada o suficiente para reconhecê-lo após catar tudo do chão e dizer um oi amarelo cheia de suor no rosto e nada mais restaria do que aquele tudo bom que se responde com tudo bem.
Pensou mais tarde que talvez desse certo se o reencontrasse no café do museu. Ela estaria sozinha, como toda quarta-feira, a olhar o painel de cortiça com panfletos de festas, cursos e publicidades diversas, do jeito mais ela que poderia haver, com as pernas como tesouras, as mãos a segurar as cadeiras, algum balanço no corpo e um olhar perdido pregado nos papéis.
Ele se aproximaria, com uma vaga idéia de que ela era ela, e diria o seu nome, em tom de confirmação, com um “né?” no final da frase. Ela, surpreendentemente sem qualquer sinal de sobressalto, diria “é”, com algum riso, sem que, no entanto, dissesse o nome dele em troca. Devolveria apenas um oi breve e possivelmente continuaria na mesma posição que ele a encontrou, exceto pelo rosto, que mesmo assim o ofereceria nada mais que um canto de olho. Afinal de contas, ela não daria nenhuma bandeira, nenhuma (!).
Ele perguntaria qual filme iria assistir, se estava gostando da cidade e o que estava fazendo da vida além de ir ao café do museu toda quarta-feira. Ela responderia com monossílabos simpáticos, mas – já sabia – não resistiria a irrelevantes confissões-de-uma-frase-só como de que aquela era sua parte preferida na cidade e de que ia ao café do museu toda quarta-feira.
Jamais, porém – pensou como se repreendesse a si mesma – ele voltaria a vê-la tão nua, como da primeira vez. E antes que ele dissesse que qualquer quarta-feira dessas poderiam pegar um cinema juntos e, falsamente, como no último encontro, prometesse escrever para o seu endereço, ela o cortaria no meio da próxima frase, se desculpando, naturalmente, mas dizendo que precisava ir, pois sua sessão iria começar. Daria nada mais do que tchau e riso curto, e sumiria do café tão rapidamente que o deixaria imóvel por instantes, engasgado pelo resto de interrogação.
Mas se um dia – cogitou – ah, se um dia o Acaso se distraísse e ela o reencontrasse numa locadora, na prateleira dos filmes nacionais?! Obstinadamente, dar-lhe-ia um segundo seu e pediria um segundo dele para, pensou em voz alta que nem promessa, “embriagarmo-nus em outro instante de dois”.
Eu amei sozinha esse tempo todo

[Assim comecei a confissão para o único que me daria ouvidos naquela tarde morna e desocupada de sexta-feira, o único que guardaria meus rabiscos solene e devoto.]

Nunca precisei das respostas,
das correspondências
e dos afagos
Na imaterialidade de minha alma
Eu própria o amor
criei

[Deixei o verbo sozinho na linha sem pauta do bloco e mirei demoradamente aquela solitude antes de continuar]

Não vivi esse tempo todo
Apenas narrei tudo que sonhei

[Pus dois traços como se encerrasse mais uma nota, mas não me contive em insistir]

Das imagens mudas que assisti
Criei meus cenários com olhos fechados
Acordada em tempo real
Mas sempre a dormir em mim mesma

[Virei a folha]

E mesmo assim nunca passei
De uma narradora de outros
Dos personagens com os quais nunca contracenei
Dos diálogos nunca ditos em voz alta

[Interrompi para anotar no final da folha um verso da canção que ouvia, mas voltei]

Eu, nunca capaz de ouvir
Nunca passível de dizer, meu
Numa eterna maldição
De diário de menina
Palco de castelos nunca desfeitos
Destranco agora meu bloquinho
Único que me dá ouvidos nesta tarde morna e desocupada de sexta-feira
Único que guarda meus rabiscos solene e devoto.

“Minha voz, minha vida... minha bússola e minha desorientação” [Caetano]
Se minha vida é ficção e tudo que fiz nada mais foi que devaneio, gosto mesmo, mais que reler tudo, de escrever essas novas páginas. Quando realmente novas, elas são nada mais do que a vacuidade de algo intensa e completamente branco. O nada dessa brancura e a ansiedade de colorir é a primeira grande sensação provocação. Não raro as primeiras frases são a própria tradução deste vazio. Nada se compara ao prazer de terminar as primeiras páginas, quando já se pode reler e onde se revelam, entre a palidez dos ontens, bons desenhos para colorir. A escolha das cores faz cada momento ritualmente tão significativo que muitas vezes dá vontade de apagar só pra fazer tudo de novo.
Reconheço os sinais dessa misteriosa narrativa, sempre sublinhando a poesia dos gestos e a beleza dos diálogos e monólogos. Formada e deformada assim, por vezes lanço nas páginas, análises e juízos inevitáveis. Reconheço, no entanto, que os melhores parágrafos dessa vida foram escritos quando me joguei no colo e pulei no pescoço da fruição. Foi assim que colori essas telas brancas, combinando tintas com a ponta dos dedos, em borrões sem compromissos com nitidez nem bom tom. Alimentei sem culpa minha paixão sem-vergonha pelas entrelinhas, onde sempre me encontrei e me escondi. Me criei no abstrato. E carrego esse desejo doido, tantas vezes não consumado, de traduzi-lo. Por isso, nesse novo capítulo, me despeço de vez do tédio do cartesianismo e vou atrás de olhos oblíquos pra me seduzir.
Gosto mesmo é de ler a vida pelas linhas tortas. E faço delas as minhas.
_____,

_________________________________________________________________________________________________________________________________________________?
____________________________________________________________________________________________. Incontrolavelmente, isso mesmo.
________________________________________________________ você não me sai da cabeça desde que comecei a ler o Livro do Desassossego. _______________________________________________________________________________________________________________________________________________ ainda não tinha chegado a hora para Bernardo Soares na minha vida.
Na hora desse presente imperfeito, entretanto, ___________________________________________________________________________________.
­­­______________________________, ___________________, são nessas páginas que ___________, _________________ me sinto duplicada. E quando me sinto grão, cercada por este mar, ultimamente silencioso e retraído, vou andar na Rua _______________________ de outro tempo _____________. _________ para sair da clausura das paredes e das esperas e te digo, sinceramente, que o que há ________________ nem chamo __________. É buraco, é vazio, é nada bem ___ onde _________ sou.
____________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________. _______________, _________, ___o fato consumado_ é tudo que importa. O resto são capítulos de começo de novela. É baba de escrever. ________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________.
Mas não acredite em todas as minhas palavras, pois tenho feito delas alegoria do meu carnaval, do meu fevereiro. ______________________, entendo hoje que ___________________________. A gente sempre acha que é Fernando Pessoa, ________________________________________, _____________ meus vinte anos ______ me julgava Lídia ________________________ e ________________ declamávamos poemas abertos ao acaso, __________________________________________________ como oráculos.
Somos _essa _____ gente. E por isso publico estes dizeres, _____, com seu nome em letras garrafais _ _ _ _, o nome mais nome dos apelidos. Tão justo que se desdobra, como tu, na tua estação preferida, quando a tua terra, oculta e intimamente, floresce na seca.
_______ deste verão, _____ de expor corpos e diagnósticos, _________ em voz alta ____ naquela noite eu assisti você, ________________, sendo. Lembro que naquele ____________________ existir, diante dos meus olhos, ___, naquele meu quartinho canalha, cheios de reminiscências __________ e ecos ________________, você lia pra mim um desses _________________________________________________ Desassossego. Nunca me esqueço da força com que você se recusava, _________________________________ ser outra que não aquela que você sabia que era. _____________________ não havia erro em sentirmos como sentíamos e havia uma urgência enorme em acreditar ____________________________________________. E entendi naquele dia, ___________________________________ ou se não, entendo agora quando ________________ tantas vezes ____ li pra mim mesma, como oração, o desassossego dessas páginas, que somos do bloco dos argonautas do avesso, em que sentir é preciso, mas não é preciso viver.
E sabendo que você sabe de mim e desse meu jeito incorrigível de móbile, te confesso que vir atrás dessa brisa de sossego me pendurou num enorme paradeiro de solidão.

Por isso, olhe,
o coração, se pudesse pensar, pararia.

Bernardo Soares

O vagão parou, mas continuei em movimento por horas a fio. Até que chegou uma hora áspera e absurda quando fui acometida por uma dessas bruscas e repentinas freadas como a que um freio de mão provoca num carro em alta velocidade. Sei que desde lá desembarquei efetivamente nessa plataforma de realidade, onde me encontro perdida, sem reconhecer entradas e saídas, chegadas e partidas, portas e janelas. Procuro meus sonhos na bagagem, reconhecendo serem estes tudo que tive e que trouxe, mas os encontro necrosados, aos montes e aos pedaços. Vago agora nesta estação vazia e abandonada, mas de onde posso ver uma multidão de outros, que me olham lá de fora, tirando medidas da minha carne e conclusões da minha voz. Me sento num banco cor de sépia perto dos trilhos que já não levam nem trazem, apenas permanecem ali, mudos. Sento e espero. Espero sem esperança. Volta e meia, com os olhos cheios de nada, miro novamente os sonhos e me deparo com os devaneios juvenis e infantis que não são senão vômitos de ressaca na estação de uma vida real. Já não me vejo capaz de me embriagar de mim mesma e vivo na solidão desta plataforma que me faz só fisicamente existir. A realidade me corta em suas doses diárias de cacos e sua gravidade não me deixa voar. Sinto somente que desembarquei do trânsito e parei aqui.
Quem disse que era fácil? – foi a pergunta que apareceu depois de entrar naquele quarto que mais parecia uma jaula embora fosse o lugar que mais encontrara ar. Como pode? – continuou a perguntar. Estou só com uma multidão na sala de jantar. – foi a única afirmação que lhe dera algum fôlego, apesar da sensação dos sufocados continuar, ali. O que foi feito de tudo? Onde está a outra parte de mim? As muitas partes de mim? Será que eu perdi tudo que construí neste disco rígido? – perguntas metralhadas e ritmadas à respiração ofegante provocada pelo choro. A vontade era de encher as paredes estreitas do quartinho com um monte de interrogações do tipo “que tipo de piscina terá embaixo desse trampolim?”. Quando fevereiro partir, quem será eu? Tudo que tenho de certo está em fevereiro. Tudo que passa de março não tem esboços nem fotogramas na minha pré-visão do tempo. – pensou, trancada, naquelas derradeiras horas de janeiro.
Revendo

Vou-me embora, minha irmã, mas não te abandono. Estás em mim e mesmo quando não estiveres, te buscarei para que possamos nos reencontrar sempre em tua sala de ser e de estar. Despeço-me, aos poucos, grave e febril, como convém a garotas como nós, dramáticas e dedicadas. É preciso terminar o período.

***

Revenda

Mas quero saibas, Brasília, que foi você quem me deu asa, esta asa que já é meu norte. Esta asa que não me deixa esquecer, embora o faça tantas vezes, da força que em mim me lança longe e alto. Foi nesse teu jeito de não ter bordas que entendi o sem limite do céu e na tua modernidade utópica que assim também me criei.
Tenho insônias diárias desde que aterrissei. Penso ser essa a única prova de que estive fora, pois é tudo tão o mesmo e estão todos tão iguais que durante o dia, enquanto tenho sono, penso em tudo aquilo como quem sabe com o que sonhou, mas já não se lembra de nada. Só nessas insônias que me lembro de tudo e penso especialmente em mim mesma como outra. Sou outra que não ela, já sei. Volto aos pequenos frascos de parágrafos como quem não pode se expandir no espaço, se demorar na conversa, se estender no discurso. À parte disso, este estado penosamente lúcido de estar acordada me alonga madrugada a fora.
Naquela noite fumei pela primeira vez naqueles três meses. Um israelita que mais parecia um latino, praticamente um israelita latin lover me arranjara o fumo e me dera uma boa quantidade pra que passasse os meus últimos dias. Me encontrei de novo com aquela uma que tanto me atormentava naqueles dias que antecediam a partida e que julgava decididamente superada depois daqueles três longos meses. Voltei a olhar pra mim mesma – a umazinha – novamente com aquelas pupilas dilatadas, mas nenhum esclarecimento fantástico. Só me lembro que escrevi qualquer coisa como “esse é o último dia do ano” e “estou chegando nos trinta”. Frases numa folha solta que acidentalmente levei comigo no avião e só por isso me lembro. Penso agora que seria essa mais uma prova de que a ansiedade nunca havia me deixado. Aquela uma sempre ali antecipando as crises e reforçando as frases feitas. As frases feitas nunca haviam me deixado. E ao mesmo tempo, naquela noite, eu era uma, outra e tão diversa que sentia mais que eu assistia aquelas cenas como se filmasse tudo com olhos que já eram alheios a mim. Eu tinha novos olhos, mas aquela umazinha não abandonara meu corpo. Estava por debaixo daquele inchaço, e o que havia por de baixo daquela uma, me pergunto agora, sem já saber exatamente quem pergunta.
Só sei que naquela noite enfim voltei a narrar tudo em português pela primeira vez naqueles três meses. Só não sei ainda de quem é essa voz.
calei cabidela
mas cabidela não se calou.



Reported
Speech

Para Liana

Agradeci a ela por ter me trazido pra aquela tela que tinha sido um pouco bússola, um pouco correio, um pouco caderno, um pouco rádio, um pouco relógio, um pouco casa. Agradeci por juntar os recortes e pôr ordem e lógica no que otrora me fazia dividida confusa esquartejada.
Olhava pra aquelas imagens e não sabia.
Não sabia explicar exatamente a saudade daqueles nove meses de casa porque minha casa tinha virado uma tela cheia de recortes, assim eu disse. E, ao mesmo tempo, eu era aquela ali de fora, bem de carne osso, em carne viva, e ao mesmo tempo essa aqui de dentro, era aquela ali de dentro dela, das frases, daquela cor, da asa vermelha sempre escondida que ainda nem se entendia pois ainda aprendia a voar.
“Estou aqui dentro, mas quero pôr as asinhas de fora”, eu disse.

“Mais Tarde”, ele entrou na conversa e disse.
Sorri.
Depois chora-minguei. E disse que andava chorando de emoção com uma facilidade espantosa para eu mesma.

Será que iria me encontrar
mais tarde?
– perguntei.

“Eu quero”, disse em seguida.

Contei que recebemos a chegada do frio abaixo dos 10. Guardei minha asa e fui dormir.

Acordei e demorei um pouco até decidir exatamente com qual assunto começar, pois há muitos dias acumulava impressões e frases para enviá-la. Mandei dizer que naquela segunda-feira lhe enviara uma tentativa: qualquer coisa como uma tentativa de enviar-lhe meus dias pelo correio.
Contava da incerteza do código de endereçamento postal e receei um pouco que não chegasse no destino. Mas era só um receio passageiro, pois, eu disse, tinha deixado qualquer medo de destino pra lá. Eu dizia que me atinha às sensações só, sobretudo quando sentia o vento de liberdade tocar meu rosto enquanto olhava o horizonte de esquinas, completamente despreocupada com qualquer impressão causada ou deixada no rastro do caminho.
“É tão intenso que muitas vezes é um pequeno transe e um ligeiro gozo”, eu disse.

Demorava um pouco, mas não muito, pensando no que exatamente eu devia dizer e deixava os meus dedos correrem espontaneamente pelo teclado como resposta. Resposta, como eco pra sua voz ou um recheio pra seu oco.

Minha amiga, minha querida amiga amante, comecei
tudo se compõe e se decompõe mesmo?
Estou aqui do alto desse avião, olhando a neve lá embaixo deixando tudo muito branco, pensando nos ciclos da natureza, das nossas vidas, ouvindo paulinho e agorinha mesmo li sua carta entregue em mãos naquele outubro... depois de me ler no passado, te pergunto: tudo se compõe e se decompõe mesmo?
Para onde vão esses baldes de amor que enchemos nessa vida, Consumimos ou eles simplesmente se decompõem e viram adubo num jardim de silêncio?
Sou eu agora como os reflexos e reflexões dessa imagem, cheia de hesitação e coisa por dizer. Estou em trânsito e quero chegar no amor de novo, eu disse.
Te mando um mês, algumas semanas, um final e o início do que vou ser. Feliz 2009.

Cartão Postal: William Eggleston, "En route to New Orleans".
Outrono
it's a long long long long long way
Caetano

Estou no vagão. Não sei quantas estações ainda virão até que chegue a hora de partir. Fecho os olhos e não sinto mais o medo de errar o destino. Tenho o cartão ilimitado do metrô e tempo suficiente para me perder mais uma ou duas vezes. E afinal de contas, resmungo, who cares?
O trem parte. A velocidade, os olhos fechados, a música nos ouvidos: e eu vago. Simples, assim, como um vôo cego.
Acordo subitamente do curto transe com a porta abrupta que abre e fecha. Esqueço completamente pra onde estou indo. Encontro algumas anotações, um número, um nome, mas não faço idéia nem de onde, quando nem como.
Sei que nunca estive.
Abandono a história de endereços destinos hora marcada e volto a me transformar no vagão. Sinto agora perfeitamente o meu corpo percorrer os trilhos e entendo intensa e claramente o meu trânsito.
Não tenho medo de errar o destino, porque não estou indo pra lugar algum. Apenas caminho para reencontrar o que deixei na última estação e voltar a sentir, nem que por alguns instantes, como aquela transa, alguma sensação de inteireza. E tudo fará sentido depois do trânsito: um laço unindo uma ponta à outra - compreendo comigo mesma tão rápido quanto à velocidade deste trem e tão certo quanto esses refrões repetidos que escuto.

Faz sentido.

Abro os olhos.
Lembro de tudo e do lugar exato onde quero chegar. Lembro que não era inteira assim há décadas. Olho o relógio para voltar aos números, datas e combinações. O relógio, agora tenho um relógio, não tenho um relógio há décadas, penso olhando demoradamente o ponteiro dos segundos. A porta abre e eu ligeira na rua cinqüenta e sete acerto a estação e desembarco.
Lembro que vai chover enquanto subo as escadas. Já estou pronta para outro outono. Minha última chuva eu já sequei.
Para ler ouvindo: Santa Chuva
ÚLTIMA CARTA

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Ele,

Cansei de me desculpar e você me desculpar. Cansei de você se desculpar e eu te desculpar. Cansei de ser desculpada pelo meu temperamento e da desculpa do teu temperamento. Cansei de te amar sozinha porque eu te amaria todo dia naquelas dias de amor se soubesse amar a mim mesma; mas agora que eu sei amar sozinha, eu quero ficar me amando só.

Esqueci dos detalhes das cenas rebobinadas tantas vezes na memória que antes tudo era capaz de reconstituir. Estranho, mas eu simplesmente já não me lembro. E não gosto mais de voltar àqueles lugares todos no passado e já não gosto, principalmente, de lembrar daquele abandono.

Procurei nossas cartas antigas, mas estão todas encaixotadas. Só sobrou essa última conversa onde nos dissemos eu te amo. Pela única e última vez. Mas eu também esqueci o que diziam as cartas. Estranho, pois li tantas vezes que deveria saber de cor.

Mas digo: esqueci.
O que você disse mesmo? O que você sentiu mesmo? Quem é você mesmo?

Já não importa.

Cruel? Não nos culpo. Ou talvez culpe e essa seja a parte mais difícil. Mas é assim: difícil tanto quanto foi grande intenso muito. Não me culpe, não me dês culpe, não faça nada. Eu não faço mais nada por nós, além dessa última carta. Não há nada além desse ressentimento que aos poucos vai ser diluído no caldo dos anos, nesse tempo que faz a gente esquecer cansar ir embora.
Estou indo embora da cidade e sinto também que estou indo embora de você. Senti isso num dia de mudança quando, tentando pôr minha vida naquelas caixas para a transportadora buscar, chorei alto forte com algum desespero e percebi que estava deixando a nossa história, o nosso amor urbano ali, naquela cidade que nos uniu cósmica misteriosamente, embora nunca tenha nos assistido juntos. Depois chorei de indignação com seu atrevimento em me visitar tão inoportuno em plena mudança, com tantas coisas para encaixotar. Mas logo depois, e mesmo assim ainda na mesma música, quando ouvia pela primeira vez Marcelo cantando nossa chuva, chorei percebendo que o que estava fazendo naquela manhã de terça-feira de setembro era decidir o que deixar, o que levar, o que jogar fora. E eu estava te deixando ali, de fora das caixas. Foi então que me veio o choro que eu esperava há semanas e me veio praticamente como um auto-orgasmo, como se estivesse me amando só. Choro de benção, de fim de chuva, que dissolveu rápido e certeiro como sal de frutas o sufoco sem nome que morava dentro de mim há semana.

Mas quantas vezes eu te disse adeus?
Eu sei;
mas não se engane: o adeus de agora eu te digo nesta carta que nunca será selada nem correspondida. Apenas endereço

Pra que minha vida siga adiante

Eu não respondo mais.


Fone de ouvidos. Janela aberta. Tudo escuro: só a luz da interface e a voz do ouvido.

Luísa Breu: 2,00 MB (2.108.309 bytes)

Sou nitidamente uma moça de seus vinte e quatro anos, de alta resolução que faço jus aos meus dois milhões, cento e oito mil e trezentos e nove bytes. Vivi minha vida toda neste deserto sem encontrar um par sequer. Essa é minha última noite na cidade. Tudo que eu consigo pensar é que é minha última noite na cidade e que alguma coisa deu errada nas previsões de Mara. Mara é a cartomante que me atendeu no último verão, na Bahia. Mara me disse em janeiro que havia dois homens nas minhas cartas. Um, o rapaz que havia se casado e outro, que ainda estava por vir, que ela chamou de Imperador. Disse até que era muito bonito, informação que gerou mais ansiedade, porque logo depois de atravessar a primeira rua, minto, já no elevador do prédio do Candeal, onde minha mãe e minhas tias separadas já tinham estado naquele mesmo mês, eu já me sentia completamente apaixonada pelo Imperador. Sai a procurá-lo vorazmente pelas festas do verão. Cheguei a pensar que fosse Caetano depois de tê-lo encontrado duas vezes seguidas em festinhas no Rio Vermelho. Tudo me levava a crer que era Caetano meu Imperador já que eu estava lendo seu livro, ouvindo incessantemente seus discos e encontrando ele nas festinhas no Rio Vermelho. Cheguei a imaginar o grandissíssimo romance: eu sucederia Paula Lavigne e diria que Mara me levara até ele. Mas Caetano não apareceu pela terceira vez, pelo menos não de corpo inteiro, embora tivesse me acompanhado todo o verão com seu livro e seus discos. Me vesti de columbina para encontrar o Imperador vestido de Pierrot, mas o suposto me deixou sozinha em plena terça-feira, gorda, cantando, desesperadamente “quem é você” na multidão mascarada. Depois de superada, as cinzas do carnaval eram minha esperança imperial. Delas brotariam não mais um Império de estação, e sim um rapaz que me trouxesse a longevidade e a elegância das palmeiras imperiais pelos mais de dez meses que me esperavam no ano. Fiz a mesma pergunta a mim mesma possivelmente duas milhões, cento e oito mil e trezentos e nove vezes: será que é ele? será que ela? toda vez, para qualquer flerte, qualquer rosto novo, qualquer um ou uma que cruzasse a minha busca. O fato é que Mara disse que a previsão tinha duração de nove meses. Estamos em setembro, essa é minha última noite na cidade e, pasme, eu só encontrei o Imperador hoje! Ele é um moço de baixa resolução, apelidado de bigode, do qual o nome real desconheço e o apelido só sei porque fizemos uma disciplina juntos na universidade. No momento em que o vi senti uma nova e magnética atração por aquele rapaz apelidado de bigode, do qual o nome real desconheço e o apelido só sei porque fizemos uma disciplina juntos na universidade. Minutos depois, estática e distante, vou juntando as peças do calendário no quebra-cabeça de minha memória e entendo tudo: desde as festinhas de março que bigode e eu temos nos esbarrado por festas, padarias, entrequadras, corredores e eu, culpada, não tinha me dado conta que bigode era meu Imperador. Olhei, com olhos de ímã, séria e urgente para bigode e encontrei seus olhinhos miúdos, leves e de conexão à rádio. Por um ou três instantes sintonizamos nossos olhares, mas meu sorriso se desfez num gesto assustado e descrente ao me lembrar que aquela era minha última noite na cidade e nunca saberia o nome real daquele que nesses noves meses é procurado nas festas, padarias, entrequadras, corredores pelo nome de Imperador. É minha última noite na cidade e meu Imperador passou da validade.
Setembro chega de forma preciosa. Cada sentido de cada segundo é raro e derradeiro. Uma derradeira primavera, que tenta se entender em linhas.

(...)

e é assim que eu sinto a minha partida: aqui.
mesmo sem me libertar,
eu vôo.

Brasília, setembro de 2008.
Setembro trouxe cigarras consigo. Dessas de fábula, que anunciam alguma coisa. Ela não escuta nada com seus fones de ouvido esquizofrênicos, os olhos borrados e a mente inquieta. Setembro trouxe cigarras consigo e um calor enlouquecido. Ela pensa que a cidade se esquenta para abraçá-la, em sinal de despedida. Setembro trouxe cigarras consigo e um calor enlouquecido, mas ela não chora. Há um aperto seco dentro dela. Setembro trouxe cigarras consigo e um calor enlouquecido, mas ela não chora nem ri. Há uma crise ranzinza dentro do apartamento. Setembro trouxe cigarras consigo e um calor enlouquecido, mas ela não chora nem ri. Ela só escreve, como uma cigarra louca, chorando enquanto ri.
terceiro ato
Observo o pedaço final de seda sendo queimada junto com meus dedos. Percebo que a imagem está sendo finalmente reconhecida pelos meus sentidos. Parece que de repente consegui entender o cinema com os olhos de câmera. Mas estou atormentada, um pouco, pelas imagens glamourizadas com as quais me educaram. Foram elas que criaram em mim este estado de tontura e profunda embriaguez. Mas já não percebo nada. Isso é bom. Esquecer de tudo, quero esquecer de tudo e voar. Lembra do tempo em que a gente voava, gente? Saíamos desvairados pelos jardins internos de quadra, dançando na madrugada, pisando em nuvens de plainas. Lembro daquelas noites como noites laranjas, com uma espécie de iluminação antiga das cidades históricas. Sabe? Como em Goiás Velho naquele festival de poesia? Naquele festival eu me senti livre, acho.
Pauso. De repente corri tanto que me cansei novamente. É definitivamente como uma maratona isso aqui. Estou tentando chegar em Luísa, mas estou correndo muito para alcançá-la. Como responder quem é Luíza Breu? Como fazer de tudo isso ficção? Ascendo um cigarro e percebo – o que já sei - que meus escritos estão viciados em serem produzidos e encenados de cigarro à mão. É o cinema!
Sinto como se estivesse morrendo. Aos poucos. Morrendo lentamente com uma sanfona ao fundo. Deixando o cigarro me autodestruir, permitindo que a fumaça entre neste dentro sufocante que é o meu ser tão.
Esta busca de deus anda me enlouquecendo. Minha alma liberta pede um deus liberto. Mas as pessoas não entendem. E vocês não estão entendendo nada, nada.
O barulho dos vizinhos! Estou há dias neste apartamento e a única coisa que vem de fora são passos do corredor. Sinto que estranham este disco tocando sem parar e esta fumaça vazando por debaixo da porta. Me sinto protegida, mesmo trancada do lado de dentro, porque sinto que as chaves vão aparecer qualquer hora dessas, como tem acontecido todos esses anos.
Preciso desses momentos para ser eu. Preciso ser eu. Ou voltar a ser eu, pois estou perdida nesses dias e horas sujas.
Não existe uma só Luisa Breu. Não foi só eu que me criei. Fui criada disso tudo. Sou criação deles também. Fui nomeada, definida, justificada, psicologizada diversas vezes por outros tantos narradores. E eu mesma me nomeei, me defini, me justifiquei, me psicologizei, entre outras coisas, centenas de vezes.
Preciso voltar a voar, alto, forte, veloz, eu vôo. Eu vou, mesmo sem me libertar, eu vou. O dia 4 vai chegar e eu vou precisar ir. Então, posso morrer um pouco até lá? Posso, eu deixo. Me deixo por alguns instantes. No que pensar?
Não estou triste. Apenas estou. Inteiramente aqui, apenas estou.
Vou até a janela onde permaneço por bons minutos. Me debruço na janela e a luz forte do sol perto do cair da tarde me acalma.
Vou fazer uma vitamina porque não quero morrer. Depois de horas seguidas ouvindo Marcelo o barulho do liquidificador me enlouquece.
Depois de um longo corte que demonstra a passagem do tempo, uma meia hora talvez, vou ao quarto e escrevo um trecho de Liberdade na parede. Penso que o quarto virou cenário ou locação e já não consigo habitá-lo. Pensando melhor, vejo que de repente todo esse lugar, a ainda casa, virou um palco. Ascendo um cigarro com alguma desenvoltura, melhor que as tentativas anteriores. Já consigo suportar mais sua fumaça e sinto que estou voltando a fumar. Isso lá é bom, pergunta Marcelo. Não sei, digo levantando e batendo as cinzas no cinzeiro de flor. Volto a ser fumante por alguns instantes, mas meu corpo dá sinais de cansaço novamente. Apago o cigarro em seu início e deixo ao lado de outro quase inteiro. Preciso parar um pouco para recupera o fôlego e decido tomar água. Sinto que minha narrativa vai se cansando, como meu corpo. Tento materializar meu corpo na narrativa e me repartir nesta transposição começa a ficar doloroso. Enlouqueço.

Tento ser livre. Não digo que sou, mas digo que tento. Tento ser livre. Todo dia. Sem psicologismos, mas a liberdade parece ser um estado total de distensão de músculo que beira a um estado de orgasmo. Orgasmos, agora sei deles. Mas, enfim, dizia que tento ser livre, mas acabei de ascender um cigarro depois de vários dias sem ele. A puxada é desgastante, tira meu ar. Mas fôlego demais também não está funcionando. Desculpe, mas não está resolvendo. Não o toco. Um pouco de chá gelado, seria bom, então preciso me dirigir a cozinha. O chá é muito bom. Acabo de decidir que ficarei em casa a segunda inteirinha ouvindo o mesmo disco e bebendo chá verde gelado sabor abacaxi. E fumando um trago por cigarro. E produzindo, expulsando de mim tudo que preciso escrever este último mês nesse lugar que ainda toma pra si o nome de casa. Choro, mas não é dramático, porque é um choro agradecido. É um choro de poesia. Marcelo canta liberdade. Ele fez pra mim. E tive certeza na hora em que me senti muito emocionada com ela. Porque Marcelo soube de mim esses anos todos. E pensei ele ainda sabe, quando ouvi a canção. São dois tragos. Dois tragos por cigarro. Apago o cigarro quando estava já quase no filtro. Preciso diminuir a quantidade de quase todas as coisas. E engordar essas linhas. Preciso. Esta conjugação tem sido repetida diversas vezes e é o retrato de uma mente neurótica. Adquirida. Navegar é preciso, viver não é preciso. Tive que colocar esta frase aqui pra dar sentindo ao fato de ela estar escrita na parede.
Essas últimas frases são histéricas. E eu sou feminista, não admito ser histérica. Levanto e escrevo algumas lembranças do livro de memórias que estou fazendo para um vibrador. Escrevo vibrador e acho interessantíssimo o fato do microsoft word grifar a palavra vibrador. Ele aponta que esta palavra está incorreta e dá outras sugestões: vibra dor, vibrado, vibrados, virador. Mas digo, o livro é sobre quem é vibrado e não o que vibra dor. Mas eu estou me desviando do meu tema, da minha frase de efeito. Preciso voltar pra sensação que tive quando pela primeira vez disse, pensei, senti tento ser livre, todo dia. Ele diz que tudo passa. Será que nunca mais sentirei aquela liberdade outra vez? Porque estou atrás dela, desesperadamente. Ela me escapuliu tal qual um sabão e estou desconcertada, escorregando, esperando meu corpo cair. Vira dor.
Meu corpo está pesado, mas quero continuar tentado restabelecer essa liberdade tentando enfiar na minha cabeça que não comer, não fumar, não produzir, não ler é uma necessidade e condição para minha liberdade, ao mesmo tempo que eu me autodestruo me privando de todos os meus vícios. Ora, porra, eu adoro meus vícios. Vou digitando compulsivamente entrando num momento epifânico. Eu provavelmente gritaria esse texto. Tomei todos os vidrinhos de vício que tinham aqui em casa. E tenho comprado novos todos os dias. Meu corpo está pesado, cheio de vícios novamente e ainda não reencontrei a sensação de liberdade. Me sinto completamente desesperada. Um desesperar de alma e um enorme agravamento de meu estado com essas palavras. Ao mesmo tempo é, interrompo o pensamento e vou pegar outro cigarro. Pego uma água velha num garrafa com menos da metade cheia. Pauso longamente a minha mente com os olhos fechados. Sinto meu corpo agredido. Apago o cigarro no início. É assim que é bom parar com um vício. O vício é a prisão, fica claro. Mas eu dizia que é assim que é bom parar com um vício, digito enquanto falo o que digito. É assim que é bom parar com um vicio, quando a vontade cessa. Quando não se agüenta mais aquele vício.
Lembro do vício que abandonei neste ano oito que finda de fato finalizando tantas coisas. Poxa, tem um vício que superei. Tá tudo bem, não te desespera. Alguém por favor me diz que tudo bem? Que saudade da minha mãe. Depois de quase um ano morando só, sem nenhuma solidão no currículo, choro desejando a minha mãe do meu lado dizendo o que ela sempre diz e com o melhor abraço do mundo. Precisei desse desespero pra sentir falta da minha mãe. Preciso um pouco da minha varanda. Levanto ao som de fim de tarde, mais tarde.
Não demoro. Muitas coisas se passam com a música de marcelo, o som da cidade, a paisagem do fim de uma asa e os pensamentos todos juntos trazendo muitas e desordenadas frases. É tão grave que não consigo me sustentar em pé por muitos segundos. Sinto um estado de entorpecimento nos meus olhos quando sento. Luiza Breu me olha da bancada, onde espera na fila para nascer com seu nome escrito num post-it. Mas eu dizia de um vício curado, ou uma saída da prisão. Era um rapaz que me prendia. E consegui sair, assim com muita tranquilidade e segurança, porque estava ... caberá ao nosso amor o eterno não dá, catarolo... enfim, por sentir vontade, eu sai desse lugar que construi com o rapaz. Porque os laços que são construídos... relações, que seja, são um espaço na vida da gente. Um espaço que muitas vezes precisamos abandonar compulsoriamente para conseguir realmente abandonar. Sorrio e penso que minha mãe adoraria esta frase. Logo depois penso o quanto em mim tem ela. Quando se abandona o espaço como este, continuo, ... é difícil continuar. A sensação me escapole. O telefone toca. só atendo quando terminei a frase. Era meu irmão e volto com algum cansaço. Me sinto muito cansada do desespero. Olho pra essas palavras sem ler nenhuma delas. Estou no bloco de notas porque o microsoft word está dando erro. Será que eles querem roubar meu texto? Penso que a paisagem de palavras no bloco de notas neste momento é um belo chapadão. Tentem o prazer dessa imagem em casa, crianças. Estou falando com alguém? Estou falando com vocês? Estou falando comigo? Estou? Marcelo você pode me ouvir? Tudo p a a s a a a a. Ele responde que sim. Olho para Caetano procurando alguém. Sinto bater uma onda reminiscente da vibração da madrugada anterior. Desisto daquela paquera pálida. Acabo de desistir. Preciso de chá.
Espero vir uma música mais calma para que eu possa unir novamente os cacos otrora dispersos. Mas a dispersão faz parte do minha tentativa de ser liberta. De não ser escrava de mim mesma. Ou será de não ser escrava do que eu acreditei ser, de ser escrava de tudo que me fizeram acreditar, de ser escrava das performances que eu consegui e das performances que eu não consegui executar? É tudo. Por isso é muito grande: eu quis dizer que era livre, pois assim eu me sentia naquele abril ou teria sido março, não, foi abril. Eu quis dizer que era livre, mas é muita coisa ser completamente livre. E eu não tenho essa liberdade de dizer que sou livre. Reascendo o novo cigarro antes apagado. Uma nova onda de cansaço me sopra e perco o folêgo das linhas anteriores. Será? Apago novamente como mais uma tentativa de encontrar uma sensação de liberdade anterior. Preciso levantar um pouco, então, respiro fundo. Levanto sem saber em que canto da casa repousar um pouco. Ponho novamente a música e observo a bagunça segundafeiristica. é ótimo estar no bloco de notas, penso, não há programas sublinhando as palavras em vermelho e verde. Deito no chão como fiz tantas vezes naquele fim de semana que já era passado, mas ainda estava presente, sobretudo na sujeira das coisas. Me contorço, com algum desespero, mas não consigo chorar. Me pergunto algo sobre a seca. Mas a agonia que eu sinto permanece. Uma agonia seca. Preciso chorar. Preciso e não consigo. O não conseguir com a precisão de uma agulhada. Penso em socorro.
Com alguma auto-violencia consigo materializar algum líquido nos olhos. Mas é um choro de poesia que quer vir. E eu não entendo.
Eu não entendo.
Esse sempre foi o maior drama. Pego uma foto no quadro. Estou numa praia. Linda e completamente infeliz por me sentir feia. Asujeitada, mas linda. Um tédio? Não, na praia. De repente ao olhar a foto de longe, de volta ao quadro, eu, sozinha, numa faixa de papel com um pouco de mar até os tornozelos e um bom pedaço de céu na minha cabeça... eu era feliz naquele segundo de sorriso e disparo? Ou era mais um tiro forjado no sorriso engarrado? paro um pouco e penso. a música me desperta e paro de pensar. Percebo que o computador está sujo, mas não me movo. Vou me divertir um pouco na casa. Busco algumas floreszinhas de crochê para inventar um penteado. Não as encontro. Piso irritada no chão todo sujo de farelo de biscoito e penso como eu vou fazer uma mudança se não sei onde estão as coisas. A transportadora quer que eu faça uma lista dando valor ao meus bens. Tarefa impossível. Não há bens, há uma coisa só e ela só tem valor toda junta, reunida nesta disposição neste lugar que chamo, ainda, de casa. Quando isso que eu chamo de casa for esquartejada e enterrada em caixas de papelão cor de terra seca quem será eu? Como será eu fora deste lugar, indaga minha ansiedade dolorida. Pois neste lugar já me encontrei e foi aqui que me senti livre aquele dia de abril que escrevi tento ser livre, todo dia. Fecho os olhos e peço, como oração, que esse sentimento volte. Abri os olhos, mas repeti novamente o gesto agora mais séria, ereta, no chão da sala, com um violão em meus ouvidos.
Depois de uma longa introdução, penso que é a última segunda nesse apartamento. Escorrego e deito no chão novamente. Ensaio um choro de atriz de quinta, mas ele não vem. Ascendo mais um cigarro e mal suporto o primeiro trago. Meu cansaço volta. Tinha tido uma intuição que penso que me ajudaria, mas me enfraqueci e ela se foi. Tento recuperar minhas forças para recuperar a intuição. Ligo para minha menina e peço um abraço. Choro como se me derramasse enquanto falo. Me fortalece bastante. Quero careço Preciso me derramar.
Respiro longamente dessa vez depois de alguns minutos de um choro livre. Chá. Preciso ser livre, me digo. Tento ser, mas nem sempre consigo. A intuição era que talvez eu não alcance mais a liberdade daquele abriu. Os momentos de liberdade são inéditos como os pratos da minha culinária. É impossível repiti-los, pois já não se sabe a receita, ou melhor, não há receita, as medidas são espontâneas e os ingredientes variam de acordo com a validade. E a data de fabricação daquela liberdade ficou no mês quatro e já utrapassamos, penosamente, a linha do mês oito do oito. Chegamos ao nove e nove tem cara de final. E é, de fato. Por isso a recuperação é precisa. Mas estou muito cansada, muito cansada. Tenho me aplicado auto-psicologismos baratos para me salvar. Estou em ânsias. De repente um fino gosto do orgasmo da noite anterior me toma. E é estranho. Miro novamente o chapadão de palavras sem ler. Me espreguiço em voz alta e meus músculos me dizem que estão cansados, respondendo a minha pergunta se um banho ajudaria. A sujeira do meu corpo me mantém inerte, mas viva. Ligo para o tatuador para marcar uma hora. Preciso com urgência fazer uma intervenção no meu corpo. Leio esta frase comunicado novamente e penso que ela serviria mais a uma agenda do que a nós, aqui. Penso novamente no tema recorrente do narcisismo e da necessidade toda de exterminá-lo. Ao mesmo tempo entendo que este aqui é um canto de narciso. Penso no ano em que estamos. Penso o tempo todo no ano que estamos. Me vejo caminhando nas ruas da década, com vinteequatroanos na mochila, avistando um final. Na verdade na caminhada penso que estou avistando portais. Isso, portais para outras dimensões. Como sinto falta de assistir a essas imagens sem a fumaça de um cigarro. Ascendo um cigarro.
Depois de uma traga leve, deixo repousado no cinzeiro de flor. Penso que vou conseguir, mas meu corpo ainda se cansa. Ouço a marchinha, quieta e acho graça. Consigo dar mais algumas tragadas. Vou ao sanitário e expulso mais alguma coisa de mim. O liquido vermelho continua a escorrer, aumentando cada vez mais seu fluxo. Olho as minhas várias versões no quadro de fotos. Qual a utilidade de um quadro de fotos? Fico por alguns minutos me lendo nas imagens do quadro. Penso que este fim de década é ainda do indivíduo. Estamos detonando os grupos. Penso, de repente, em mim abandonando o meu grupo. O meu grande setor que é brasília. Me vejo abandonando um pouco de mim. Olho novamente o quadro de fotos, abandonando os vários eus dos retratos. Algo me diz que elas não querem me abandonar. Será que gostaram de quem elas se tornaram? Será que querem abandonar este corpo e voltar a serem elas? Será que ainda querem ser outra pessoa que não elas? Será que alguma delas queria ser eu?
O rapaz volta novamente a minha memória. Tudo isso porque ouço essa música do disco que tem a nossa cara. Talvez nossa última música, nossa última cara no retrato. Caberá ao nosso amor o eterno não dá, cantarolo. A música termina enquanto penso nessas palavras e de repente ele foge novamente da lembrança. É um retrato do fim de uma prisão. Acho bom e cantarolo alguma coisa da música posterior, com alguma serenidade.
Será que já posso parar?



Luiza Breu

Phoenix - Cibelle

Novamente os abismos. E como haver abismo sem cigarros?
Perdão, meu corpo, mas você já aguentou tanta coisa, mais esse cigarro não vai fazer diferença.

(ascende o cigarro e dá uma longa tragada)

Vamos se perdoar um pouco, tá?

(fuma o cigarro e cantarola o começo da música)

Help...
... i’m falling down...
Nós somos cheios de carnes, ossos, traumas, vontades, sonhos, construções e eufemismos... não queira bancar o mocinho agora e dizer que precisa dos meus cuidados. Eu não sou a heroína e não pretendo elevar meu espírito ao nirvana, pelo menos não nas próximas semanas.

(fuma o cigarro ao som de Phoenix; aproxima-se do espelho e conversa consigo mesma)

Ah, Luiza, quem você tá procurando aí dentro? O que você quer enxergar nos olhos? Será que são os seus olhos que você vê quando se olha no espelho? Ou essa massa maior e disforme que envolve pêlos, carnes, ossos? Há semanas você não consegue se ler, Luiza. Há semanas você não está em paz com esse espelho. Saia daí. Saia já.

(caminha, enferma, até o notebook, empilhado em caixas)
Sejamos agora, agosto. Como pude dizer isso? Como pude bolir com agosto, tão atrevida? Agosto, o agora preeminente, pró-iminente. E agora assisto a essa enxurrada de agoras. Tudo está agora mas minha imagem é estática: o único movimento que assisto é das formigas nos fios. Os restos das colheres estão cheios de formiga e já não consigo manter essa casa funcionando. Eu própria parei, diante da velocidade das coisas e tudo que consigo acompanhar é a velocidade da formiga nesses fios. Escrever é a única coisa que pode te salvar, uma voz disse. Clichê barato que multiplica mais e mais as linhas – quase uma espécie de fermento royal: escrever é terapia.
Pelo menos meu drama é fértil. É preciso dar frutos. Orgânicos! Movimento de intelectuais orgânicos e integrais. Intelectuais, puf...
É hora de terminar os livros pela metade. Como? Se eu mesma sou metade de alguém. Metade separada deste corpo interferido. Esta prótese que carrego, que arrasto. Meu corpo, meu corpus, meus ais, meu, meu, meu... Mas não consigo me livrar de ser consciente neste inconsciente coletivo – porque eu sei dos assujeitamentos e é praticamente um caminho sem volta.
Parei de ler o Caetano outra vez. Agora mesmo. Parei. É impossível terminar os livros em meio a essas urgências. Sim, porque é um agosto urgente... inchado.
Por favor, saiam todos. Não consigo escrever com vocês aqui. Vamos, saiam: Adalbertos, Tânias, Andrés, Reginas, Cristinas... Eu preciso escrever uma peça! Por favor, saiam.
Obrigada.
O Sertão é uma espera enorme. Rosa. Foi isso que eu passei fazendo aqui? Esperando? Como aquela moça que leu minha borra de café e disse: te vejo sentada, a mão no queixo, esperando. Foi uma imagem tão melancólica porque o que eu sentia era que eu estava justamente esperando. O pior é que era a espera por um homem. Mas hoje penso, será que passei esses longos e intensos doze anos neste sertão, sentada, com a mão no queixo, esperando? E, agora, que eu estou indo embora tudo quer acontecer?
A sina dos nômades é morrer de saudade, eu disse, mas eu não quero essa morte. Não há bebida que beba a saudade. Rôrô.
Eu não vou conseguir cenas, meus amigos, me desculpem. Eu só sei escrever monólogos... e materiais didáticos institucionais.
E quanto ao movimento contra o barrigacentrismo, militantes, me desculpem, mas ainda não pus em prática as muitas vintequatro horas do dia (observo a formiga andando no caderno) o nosso bordão e insisto correr pro espelho assim que acordo. Mas repito repetidas vezes (formiga) o nosso mantra: abaixo a neurose. Abaixo o narcisismo. Duas formigas. Meu Deus, estou entregue às formigas. Podem vir, devorem esta draga velha cheia de açúcar, proteína e carboidrato.
Incidental: levanto e ponho Pão Doce, com Calcanhoto.
Não. isto precisa ser mais dramático. Muito dramático, ouviu?
Incidental: levanto e ponho Sol de Primavera, com Beto Guedes.
Se 80 foi a ressaca, será que depois de 2000 voltamos a estar de porre?
Não ao barrigacentrismo.
Abaixo a neurose e o narcisimo.
algum diálogo





- Não consigo.
- Também não. Essa cidade está insuportável.
- É a seca.
- A lei?
- Não... o tempo seco.
- Paralisamos.
- Como numa greve?
- Pode ser.
- Preciso de você na veia.
- Pra mim também é o único lugar suportável pra passar o dia todo.
- O exercício do nada.
- A interlocução do nada.
- Do eco, talvez?
- Às vezes.
- A cidade está insuportável.
- Eu sei. (pausa) Acho que você deve ir pro Rio, encontrar ele.
- Ai. Nem me fala que dá cócegas.
- Seu frio na barriga se chama cócegas?
- Qual o nome do que você sentiu?
- Adrenalina.
- Adrenalina?
- (Afirmativamente) Assim que eu sentei na cadeira do ônibus! Quando desembarquei quis perguntar: é aqui o amor?
- O que diriam?
- Que era. Mas ele provavelmente não diria nada.
- (Pausa) Acho que é o frio.
- Dele?
- Não. Da cidade.
- É ainda mais denso que isso. (pausa. com alguma inquietação) É agosto, meu amigo, pesando nos nossos ombros.
- Um agosto grave... Como esses galhos. (Olhar perdido. Cigarro)
- Mas é novembro meu mês mais difícil... Sempre.
- E quando é o amor?
- Não sei... nunca.
de repente ser só
soou como abrigo
pois a porta está fechada
e tudo está no lugar. no meu lugar.

de repente é só estar por dentro
livre do vento da madrugada
e aquecida no ventre de júlio

este homem que não sei quem
nem quando.
Genital
Digital
Código Genético

Dados?
Detalhes?
Discursos?
Dogmas?
Dúvidas?

Desconfie.

Gente é gente.
CORO: Olha cabeleira do Zezé. Será que ele é? Será que ele é?
ELA: Bi?
CORO: Olha cabeleira do Zezé. Será que ele é? Será que ele é?
ELA: Maybe

(ELA esquece o que tinha que falar. O coro se retira.).
O mar do rio vermelho
É todo água de cheiro
Abriu
“se o coração disparar / quando eu levantar os pés do chão
a imensidão vai me abraçar e acalmar a minha pulsação”
(por arnaldo antunes)
Agora sei o cheiro da minha comida, do meu lixo e dos meus lençóis.
E amo particularmente o cheiro da minha pele,
porque nela agasalho a minha alma
nesta casa que resido
com o calor do que de fato sou, assim, primeira pessoa.

Um ‘viva’ às saladas, aos chás comunitários e aos almoços oferecidos
Um aparte para os cigarros de varanda e as comidinhas de intervalo
Um elogio aos invasores de reitoria e à ingenuidade,
que é a arma mais genuína de mudar... o mundo.

Afundo na onda de bonança ressaquiada que assolou minha maré.
As paredes e folhas ecoam: abriu.


Estou pronta pra embarcar e me juntar ao cardume de não-identificados.

No canal a céu aberto
sobrevôo o desejo de mergulhar na imensidão daqueles olhos ainda vultos.

Ando doida pra me apaixonar
por este sobressalto
ainda, sobressalto.

Emaranhar meus pulsos
no desejo daqueles impulsos,
juntar os meus àqueles instantes
para viver um 1,
um a um.
E depois no apartamento
projetar no meu novo cine-pensamento
uma estréia incerta para dois.

Agora vou.
Fechou o mês e preciso acertar as contas.
Agora vôo.
É quase dia de trabalho e preciso botar o tempo pra correr.
Brasília é uma moça pálida de cabelo cor de fogo e de olhar perdido, de quem conheço os mais íntimos segredos. Ela também conhece os meus e faz tudo parecer tão imenso e abstrato que foi em sua casa de concreto que me vi acolhida para existir, sem medidas. Junto dela vivemos num eterno ser tão. Vivo com ela e me encontro nela. Como irmã de criação, ela ensinou a mim quase tudo. Foi com ela que aprendi a florescer o meu sertão e a dançar no meu jardim. Ela me leva para sua casa, que é no céu, e me ensina a voar nas madrugadas, sem que nenhum flash ao vivo nem congressistas infames descubram sua verdadeira fortuna. Sento em seu sofá e gargalho com seus filhos e adotivos, que são também meus irmãos.
Salvador é uma mulher... uma linda mulata rechonchuda de olhos de mar. Ela vive escondida pelos becos da cidade e distribui sósias pelos trios elétricos e pelos palanques, mas onde vive mesmo é no fundo de um quintal sorrindo e chorando e pulsando embriagada de vida, de muitos anos de vida. Procuro um endereço para que possa resgatá-la e levá-la para morar comigo, em minha casa. Talvez nos casemos, ainda que não dure, mas faremos filhos, ainda que em formas de grãos, um grão de amor. Nós, mãe e filha separadas, nos evocamos nos dias ensolarados daquele verão pelos cantos da sereia. Desejamos um reencontro imediato e uma nova chance de sabermos de si pela outra.
cabidela
“Now I am a lake. A woman bends over me, searching my reaches for what she really is”
– sylvia plath



Este é meu borratório. Onde, despedaçada, me reúno e me esboço, reinventando fórmulas, manipulando cores, interpretando traduções. Me encontro borrada nos cristais líquidos dessa interface, nos cacos desses signos. Do alto dessas orações examino o que resta nos filtros, repetidas vezes. Ensaio nos tubos soluções frágeis e, ao final, penduro demoradamente os figurinos, uniformes e fantasias nesses cabides. Resolvi sair da gaveta, mas ainda estou no armário.
Relatório de erros

Senhora Narradora dessas histórias, dos olhares perdidos que repousam nessas palavras e Dona, sobretudo, Protagonista que não consegue se retirar do foco, mesmo quando não mira nem vê a si. Onde estão as cartas prometidas que se acumulam dentro de ti, fazendo deste estômago nada além de um arquivo morto, que nada mais processa além de dadinhos de brinquedo? As informações nas quais trabalhavas podem ter sido perdidas, embora haja os que acreditem que podem recuperá-las pra ti. Não esperes por isso assim de pés atados, querida. Pra quê esperas tanto aí dependurada? Qual é tua próxima pirueta na dança dos enforcados? Os enforcados contêm a forca e não a força. Por que não perdes de vez as tuas perdas, ao invés de guardá-las todas em sucessivos, excessivos e enfadonhos relatórios de erros? Deves, dona, rodar de olhos fechados e sem câmera na mão, pois agora estás só e não tens público nesta janela que é teu cativeiro. Esqueces este medo de parecer inchada, pois padeces desse aparecer. Desistes dessa localidade toda e te expande, moça, pois tu és grande. Grande como não são as mocinhas e forte como não estão os sufocados. Agora são vinte e quatro e já não cabes mais neste dia correto.
em homenagem às últimas atualizações dos seus amigos nas últimas vinte quatro horas


eu preciso sair daqui


"eu preciso parar de mentir."


paixões: as pós-dramáticas.
atividades: construção do foco com peças montáveis e dramas televisíveis. apertar bem os parafusos com a chave-mestra do alemão. dar inicio ao funcionamento da máquina. depois, humanizá-la.
livros: orçamento fechado para balanço até segunda ordem de pagamento.
música: consistentes, bem elaboradas e dramáticas, em geral.
interesses no orkut: compartimentar coisas em vitrines.
com os relacionamentos anteriores eu aprendi: dançar

descrição do trabalho:

– tô te explicando pra te confundir
tô te confundindo pra te esclarescer
CARTA I

sábado, 22 de setembro de 2007

Meu querido:

Muitas coisas se passaram pela minha cabeça desde o nosso último diálogo. Preferi guardar todas elas comigo. Mas neste sábado finalmente consegui ficar sozinha e o que é oco parece ecoar. E este setembro tem sido tão agudo que é impossível desconsiderar até uma simples brasa de cigarro.
É uma das maiores secas dos últimos tempos. Ficamos deserto(s). Já são mais de cem dias sem água e queimadas diárias. E o que faço nesse tempo todo? Flutuo. É como se tudo estivesse suspenso.
Mas já é perceptível que algo está pra acontecer, pois o verde está voltando. Ainda misturado à cor das folhas secas, mas está voltando. Os metereologistas prometem calor, mas a primavera, que começa amanhã, ainda é misteriosa.
Lembra daquele poema que diz que guardar uma coisa é olhá-la e não escondê-la? E que é por isso se escreve, se diz, se declara? Então, acho que meu jeito de guardar é exatamente escrevendo. Porque eu te escrevo não apenas para te guardar, como disse naquela ocasião, mas também para me encontrar. Estou sendo repetitiva e exigindo um pouco da sua memória, mas lembra quando te disse que quando escrevo para ti, na verdade, estou escrevendo pra mim mesma? É assim.
De certa forma quer dizer também que eu me acho em ti. Parece muito, não?

Penso que uma carta não seria suficiente para explicar tim-tim por tim-tim porque é um estado tão diverso que é difícil iletrar... não é legível. Sim, nas cartas parece muito confuso. Talvez se fizesse uma tela impressionista ou um filme de prosa. Mas esse é o meio que acredito, às vezes, dominar.


Ouvi um poeta chato essa semana dizer que as cartas acabaram. Importante destacar que era um poeta chato desses de bairro que acha que fazia poesia concreta em outras décadas e hoje ele goza ouvindo um decassílabo. Perguntei-lhe sobre os e-mails e ele, nojentíssimo, apesar de forjar uma humildade, do alto das cadeiras longas azuis do departamento, desconsiderou qualquer possibilidade de valor na tela. As cartas não só terminaram como ainda podem ser de amor. Imagine, amor neste século, ele diria.

A notícia do seu casamento, então, me fez pensar se talvez eu não possa mais te escrever cartas de amor. Se assim for, posso dizer mais alguma coisa? Porque ... (pausa) ... queria dizer que te amo. Será que nunca poderei fazer tal confissão?

Vou parar por aqui para não virar um estudo comportamental dos literatos ou mais uma dessas cartas de amor que se fabricam por aí.


Essa é minha resposta.
quem sou:

in apreensível mente
sou ela ali.
Lá fora

Brasília, setembro de 2007, seca

Porque vazio também brota










E a seca também borbulha
Que o digam os ipês
Lá fora.
“Não vou me adaptar”?

A identidade é
Quadrada


I

Sigo milimetricamente os limites desta identidade à procura de bordas. Percorro o contorno de mim mesma. Me corto com as arestas amoladas, que insistem em não se enquadrar, se esquivando nos cantos pontiagudos. Estou plastificada e cheia de bolhas. Bolhas de gás. Minha margem está imperfeita e meu risco é trêmulo.

II

Estou no meio do funil. Cercada, sufocada e suspensa. A qualquer momento sinto que vou chegar ao ralo.

III

A identidade é
Quadrada
Como um balde de lixo.
(...)
Setembro também chega e parece que, depois de um longo agosto, tudo está pronto para refazer-se.

E é exatamente assim que sinto o meu retorno...
Brasília
está seca
muito seca.
belamente seca.
lindas tardes laranjas,
raros instantes de ipês
e galhos nus
eroticamente espalhados pela cidade.

Me sinto seca
também.
Agudamente
aguda mente.
Parece que o vazio do céu e da copa das árvores ecoa em mim: estou oca.
estamos funcionando.
Sensualidade de vestido decotado com morangos sensíveis bordados em pano de prato amarrado no cabelo e o sangue a queima roupa na bandeja gelada do necrotério, onde em mim autopsiam as ligações das veias verdes que transportam cor vermelha ao meu coração. Traços de pincel atômico perfuram meu umbigo onde se armazenam as cicatrizes cor de jambo que se deram na queda de meu corpo contra o mundo. Eles não encontram o paradeiro das rosas rubras mas algumas partes insistem em exalar um tal perfume que se estranha misturado ao de morte. O fígado virou uma caverna – ou uma galeria de arte? – com alguns quadros pintados à vinho e óleo. Há um sinal de libido na sola do pé mas o envergonhado sinal de exotismo se escondeu pelo corpo. Do palato se pode encontrar a melancolia do pôr-do-sol que mais parece brisa mas pode também ser calor inquietante e constrangedor de sol de meio-dia. Pois lá – e em todo resto – estão as maçãs e os corações tatuados em meio a lava e a ferida. Como qualquer fruta vermelha é bonita de comer embora perecível. A geladeira não pode conservar por muito tempo e eles não encontram o paradeiro das amoras inocentes. Passam muito tempo na vagina a procurar o óbvio suposto de violências e imposições, supondo encontrar ali a única fonte da cor. Acham, no entanto, um mar de escolhas com vontade própria, a exalar maresia antipática e autônoma. Com o corpo despido de partido, encontram uma sinfonia de líquidos discordantes que se aglutinavam outrora no pranto do papel. Retiram amostras de sangue repetidas vezes mas eles não encontram o paradeiro dos laços invisíveis que envolvem a carne viva. O meu vermelho canalha gargalha com o desespero dos bisturis estúpidos, mas o ajustado soluça com a denúncia imbecil dos sintomas. O diagnóstico é uma multa de policial corrupto dizendo que eu não posso ultrapassar a placa vermelha para ficar perto dos multicoloridos. Minhas palavras passam, então, carregando meus restos.